quinta-feira, 5 de março de 2009

A História do Budismo Engajado

Palestra sobre o Dharma proferida por Thich Nhat Hanh - Vietnã (Hanói), 6-7 de maio de 2008

(Tradução para a língua portuguesa por Fernando Domicildes Carvalho para a Comunidade de Budismo Plena Consciência)

No início do retiro de sete dias realizado em Hanói, em língua inglesa, Thich Nhat Hanh proferiu um raro vislumbre dos princípios de sua carreira. Este extrato das duas palestras sobre o Dharma revela o Thây como um mestre, um ativista social, um escritor prolífico e um defensor revolucionário do Budismo Engajado também denominado, nos dias atuais, de Budismo Aplicado.
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No ano de 1949, fui um dos fundadores do Instituto Budista An Quang na cidade de Ho Chi Ming e professor da primeira classe de noviços. O templo era muito simples, pois fora construído com bambu e sapé. O nome do templo era realmente Ung Quang. Um mestre do Dharma veio de Danang, o Venerável Tri Huu, e ambos construímos o templo de Ung Quang. A guerra se desenrolava entre os franceses e o movimento de resistência vietnamita. Cinco anos depois, em 1954, o acordo de Genebra foi assinado e o país foi dividido em duas partes: o norte comunista e o sul anticomunista. Mais de um milhão de pessoas migraram da região norte para a região sul, dentre eles muitos católicos.
Havia muita confusão no país. No templo de Ung Quang, de tempos em tempos, recebíamos soldados franceses que vinham nos visitar. Depois da batalha de Diem Biem Phu, a guerra com os franceses chegara ao fim e havia um acordo no sentido de que o país deveria ser dividido e os franceses deveriam se retirar do Vietnã. Eu me lembro de ter conversado muito com os soldados franceses. Muitos deles vieram e morreram no Vietnã.
Um novo olhar sobre o Budismo
Em 1954, havia uma grande confusão nas mentes das pessoas vietnamitas, especialmente os jovens – monges, monjas e praticantes leigos. A região norte era inspirada pela ideologia marxista-leninista. Na região sul, o Presidente católico Ngo Dinh Diem tentava conduzir o país com outro tipo de ideologia denominada "personalismo".
O Budismo é uma tradição muito antiga no Vietnã e a maioria das pessoas vietnamitas possui as sementes budistas. O senhor Vu Ngoc Cac, jornalista e administrador de um jornal diário, me pediu que escrevesse uma série de artigos sobre o budismo. Ele queria que eu produzisse insights na direção espiritual que deveríamos tomar para lidar com a grande confusão existente no país. Assim, escrevi uma série de dez artigos com o título "Um novo olhar sobre o Budismo".
Foi nesta série de dez artigos que propus a idéia de um Budismo Engajado – um Budismo relacionado com a educação, com a economia, com a política, etc. Desta forma, o Budismo Engajado teve o seu início no ano de 1954.
Naquela época, eu não utilizava uma máquina de escrever e escrevia à maneira antiga. Eles vinham, levavam o artigo e publicavam-no sempre na primeira página utilizando um enorme título com a cor vermelha. O jornal vendia muito bem porque as pessoas estavam sedentas por este tipo de saber. Elas procuravam por uma direção espiritual porque a confusão era muito grande por todo o país.
Chá de rosa e milho tenro
Esta série de artigos foi publicada em livro posteriormente. Não muito tempo depois, visitei a cidade de Hue. O senhor Du Tam, que havia estado nas minhas salas de aula no Instituto Budista Ung Quang, era o editor de uma revista budista. O seu templo estava instalado em uma pequena ilha do Rio Perfume, Huong Giang, onde era cultivado um tipo de milho muito saboroso. Ele me convidou para permanecer algumas semanas em seu templo. Todas as manhãs ele me oferecia chá com um tipo de rosa – uma minúscula flor que produzia um aroma muito delicado quando colocado no chá. Todas as manhãs nós realizávamos a meditação caminhando através da vizinhança e comprávamos milhos tenros. Ele me alimentava com chá de rosa e milho tenro e também queria que eu escrevesse outra série de artigos sobre o Budismo Engajado! (risos).
De fato, escrevi esta outra série de dez artigos intitulados "Budismo de Hoje" também sobre o tema Budismo Engajado. Esta série foi traduzida para o francês por Le Vinh Hao, um estudioso que vive em Paris. O título que ele deu ao livro foi "Aujourdui'hui le Boudhisme" (Budismo de Hoje).
Em 1964, quando visitei a América para proferir uma série de conferências, encontrei Thomas Merton, um monge trapista. Presenteei-lhe com uma cópia do "Aujourdui'hui le Boudhisme" e ele escreveu, posteriormente, uma resenha para o livro.
O Budismo que se introduz na vida
Nos anos de 1963-64, eu estava ensinando Budismo na Universidade de Columbia. A luta liderada pelos budistas em defesa dos direitos humanos levou ao fim o regime do residente Diem. Talvez vocês tenham ouvido falar do Venerável Thich Quang Duc que se imolou no fogo e atraiu para si a atenção de todo o mundo ao denunciar a violação dos direitos humanos no Vietnã. Aquele foi um gesto totalmente não-violento em defesa dos direitos humanos. Quando o regime do Presidente Diem caiu, os meus colegas me solicitaram que voltasse para o meu país natal e ajudasse as pessoas.
Assim fiz. Fundei a Universidade Van Hanh e publiquei um livro com o título de Budismo Engajado, uma reunião de vários artigos que havia escrito anteriormente.
Penso que esta seja a primeira vez que vocês tomam conhecimento dessa informação. (risos)
Isto está ocorrendo no início do ano de 1964. Eu havia escrito estes artigos antes destes fatos, mas eu os juntei e os editei sob o título de Budismo Engajado ou Dao Phat di vao cuoc doi. Cuoc doi significa "vida" ou "sociedade". Di vao significa "entrar".
Assim, estas foram as palavras que utilizei no Vietnã para Budismo Engajado - di vao cuoc doi ("introduzindo-se na vida social").
Seis meses depois, editei um novo livro com o título de Dao Phat hien dai hoa "Budismo Atualizado" ou "Budismo Renovado". Ele era a atualização do budismo chinês. Assim, todos os termos e os documentos estão relacionados com aquilo que denomino "Budismo Engajado". Após a edição deste livro, escrevi muitos outros livros tal como o Budismo do Amanhã. (risos)
No entanto, já naquela época, o meu nome fora banido do país pelo governo do Vietnã do Sul, um governo anticomunista, por causa das minhas atividades pela paz e pela reconciliação entre as regiões norte e sul. Eu me tornei uma persona non grata. Eu não poderia voltar para o meu país natal e deveria me considerar no exílio.
Assim, o meu livro Budismo do Amanhã não poderia ser publicado no Vietnã com o meu nome. Utilizei um nome originário da região das montanhas - "Bsu Danlu". Vocês poderão se admirar de onde este nome se originou. No ano de 1956, fundamos um centro de prática nas montanhas altas do Vietnã e que foi denominado de Monastério das Folhas de Palmeira Perfumadas – Phuong Boi. Compramos a terra de dois habitantes destas montanhas K'briu e K'broi. O nome da aldeia onde o monastério estava situado era Bsu Danlu.
Sabedoria Aqui e Agora
Continuei a publicar os meus livros no Vietnã com muitos outros nomes. Escrevi e publiquei uma história do budismo vietnamita em três densos volumes com o nome de
Nguyen Lang. Assim, embora estivesse fora do país por trinta e nove anos, continuei a escrever livros e alguns deles foram publicados no Vietnã sob nomes diferentes.
Como dissemos, o primeiro significado de Budismo Engajado é o tipo de budismo que está presente em cada momento de nossas vidas diárias. Enquanto você escova os dentes, o budismo deve estar presente. Enquanto você dirige o seu carro, o budismo deve estar presente. Enquanto você caminha pelo supermercado, o budismo deve estar presente de forma a que você saiba o que comprar e o que não comprar.
Além disso, o Budismo Engajado é o tipo de sabedoria que responde a tudo o que acontece aqui e agora – o aquecimento global, as alterações climáticas, a destruição do nosso ecossistema, a falta de comunicação, as guerras, os conflitos, os suicídios, os divórcios, etc. Enquanto praticantes da plena consciência, temos que estar cientes do que acontece com o nosso corpo, com os nossos sentimentos, com as nossas emoções e com o meio em que vivemos. Isto tudo é o Budismo Engajado. Ele é o tipo de Budismo que responde ao que acontece aqui e agora.
Uma nova compreensão sobre as Quatro Nobres Verdades
Podemos falar sobre o Budismo Engajado em termos das Quatro Nobres Verdades. A Primeira Nobre Verdade é dukkha – mal-estar. Tradicionalmente, os mestres budistas têm falado da Primeira Nobre Verdade desta forma - a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento, a separação de quem se ama é sofrimento, abandonar a quem se ama é sofrimento e desejar algo e não obtê-lo é sofrimento. Porém, estas são formas antigas de descrever as Quatro Nobres Verdades. Hoje, quando praticamos a plena consciência, temos que identificar o tipo de mal-estar que realmente está presente. Inicialmente, percebemos que há um tipo de tensão no corpo e muito stress. Podemos dizer que o sofrimento de hoje envolve tensão, stress, ansiedade, medo, violência, famílias destruídas, suicídio, guerra, conflito, terrorismo, destruição do nosso ecossistema, aquecimento global, etc.
Deveríamos estar totalmente presentes no aqui e no agora e reconhecer a verdadeira identidade do mal-estar. A tendência natural é esquivar-se do sofrimento e do mal-estar. Não queremos enfrentar o sofrimento e, assim, tentamos escapar dele. No entanto, o Buddha nos recomendava a não proceder desta forma. De fato, ele nos encorajava a olhar profundamente a natureza do sofrimento com o objetivo de aprender com ele. O seu ensinamento mostra que, se você não compreende o sofrimento, não poderá compreender o caminho da transformação que conduz à cessação do sofrimento. Todos sabem que a Primeira Nobre Verdade se refere ao mal-estar e a Quarta Nobre Verdade diz respeito ao caminho que conduz à cessação do mal-estar. Sem compreender a Primeira Nobre Verdade, você nunca terá a oportunidade de compreender o caminho que conduz à cessação do mal-estar.
Você deveria aprender a voltar ao momento presente para reconhecer o mal-estar e como ele se apresenta. Quando praticamos e olhamos profundamente para a Primeira Nobre Verdade – o mal-estar – descobrimos a Segunda Nobre Verdade, as suas raízes e a sua gênese.
Cada um de nós tem que descobrir por si próprio as causas do mal-estar. Suponha que estejamos falando da nossa vida agitada – atualmente, temos muito a fazer e muito a alcançar. Tal como um político, um homem de negócios e mesmo um artista, queremos sempre realizar mais e mais. Almejamos o sucesso. Não temos a capacidade de viver profundamente cada momento da nossa vida. Não damos ao nosso corpo uma oportunidade de relaxar e de curar-se.
Se soubermos viver como um Buddha, residindo no momento presente e permitindo que os elementos restauradores e saudáveis penetrem nos nossos corpos, então, não nos tornaremos vítimas do stress, da tensão e dos mais variados tipos de doenças.
Podemos afirmar que uma das raízes do mal-estar é a nossa incapacidade de viver profundamente as nossas vidas a cada momento.
Quando apresentamos muita tensão e irritação, não podemos ouvir as outras pessoas. Não podemos utilizar a fala amorosa. Não podemos remover as percepções erradas. Por essa razão, as percepções erradas originam o medo, o ódio, a violência, etc. Temos que identificar as causas do nosso mal-estar. Esta é uma tarefa muito importante.
Suponha que estejamos falando do suicídio ou das famílias destruídas. Sabemos que quando a comunicação se torna difícil entre o marido e a esposa, entre o pai e o filho, entre a mãe e a filha as pessoas deixam de ser felizes. Muitos jovens entram em desespero e querem suicidar-se. Eles não sabem como tratar o desespero ou as suas emoções e pensam que a única forma de interromper o sofrimento é matar-se a si próprio. Na França, a cada ano, cerca de doze mil jovens cometem suicídio, somente porque não conseguem lidar com as suas emoções tal como o desespero. E os seus pais não sabem como ajudar os seus filhos. Eles não os ensinam a controlar os seus sentimentos e mesmo os professores não sabem como ajudar os seus alunos a reconhecer e a manter sob controle, de forma suave, as suas emoções.
Quando as pessoas não podem se comunicar, elas não se compreendem mutuamente, não percebem o sofrimento dos outros e não vivem o amor e nem a felicidade. A guerra e o terrorismo nascem também das percepções erradas. Os terroristas pensam que os seus adversários estão tentando destruí-los enquanto uma religião diferente, um outro modo de vida e uma nação distinta. Se acreditarmos que a outra pessoa está tentando nos matar, nós procuraremos os meios para matá-la antes que sejamos mortos por ela.
O medo, a compreensão enganosa e as percepções incorretas são o alicerce de todos estes atos violentos. A guerra no Iraque, denominada de antiterrorista, não tem ajudado a reduzir o número de terroristas. De fato, o número de terroristas está aumentando continuamente por causa da guerra. Para eliminar o terrorismo, você tem que eliminar as percepções incorretas. Sabemos muito bem que os aviões, as armas e as bombas não podem eliminar as percepções incorretas. Somente a fala amorosa e a audição compassiva podem ajudar as pessoas a corrigir as suas percepções incorretas. No entanto, as nossas lideranças não estão capacitadas nesses assuntos e elas confiam somente nas forças armadas para eliminar o terrorismo.
Assim, ao olharmos profundamente para estes assuntos, podemos ver a elaboração do mal-estar e as suas raízes. Olhar profundamente significa reconhecer o mal-estar como uma verdade e observar intimamente a sua natureza.
A Terceira Nobre Verdade refere-se à cessação do mal-estar. Isto significa a presença do bem-estar – assim como a ausência da escuridão significa a presença da luz. Quando a ignorância não está mais presente, a sabedoria surge. Quando você remove a escuridão, a luz surge. Assim, a cessação do mal-estar significa a presença do bem-estar que é o oposto da Primeira Nobre Verdade.
Os ensinamentos do Buddha confirmam a verdade de que o bem-estar é possível. Porque existe o mal-estar, o bem-estar é possível. Se o mal-estar é descrito inicialmente em termos de tensão, stress e aflição, então o bem-estar é descrito como claridade, paz e relaxamento – la détente. Com o seu corpo, a sua respiração, os seus pés e a plena consciência vocês poderão reduzir as tensões e produzir relaxamento, claridade e paz.
Podemos falar sobre a Quarta Nobre Verdade em termos muito concretos. Os métodos de prática nos possibilitam reduzir as tensões, o stress e a infelicidade. Os mestres atuais do Dharma podem querer chamá-la de caminho do bem-estar. A cessação do mal-estar significa o início do bem-estar – é assim tão simples! Partindo de muitos Deuses para nenhum Deus Eu gostaria de voltar um pouco na história do Budismo Engajado.
Nos anos 1950, comecei a escrever porque as pessoas precisavam de uma direção espiritual que as ajudasse a superar a enorme confusão existente. Um dia escrevi sobre o relacionamento entre as crenças religiosas e os caminhos que trilhamos em nossa sociedade. Descrevi a história da evolução da nossa sociedade. Inicialmente, a nossa sociedade foi organizada em grupos de pessoas denominadas tribos. Com o passar do tempo, muitas tribos se juntaram e estabeleceram finalmente reinos, administrados por um rei. Então, chegou o momento em que tínhamos muitos reis e criamos as democracias e as repúblicas.
As nossas crenças religiosas mudaram muito durante este percurso histórico. Em primeiro lugar, tínhamos algo paralelo ao estabelecimento das tribos – o politeísmo, a crença que afirma que existem muitos deuses e cada um deles possui um poder. Você tem a liberdade de escolher um deus para venerar e ele irá protegê-lo contra os outros deuses e contra as outras tribos.
Quando formamos os reinos, as nossas crenças religiosas mudaram também – surgiu o monoteísmo. Existe somente um Deus - o mais poderoso Deus - e você deveria venerar somente um Deus e não muitos deuses.
Quando as democracias surgiram, os reinos deixaram de existir. Neste novo regime político, todos são iguais entre si e confiamos uns nos outros para viver. Este é o motivo pelo qual o monoteísmo está mudando para a crença na interdependência – interser – onde não existe mais lugar para um Deus. Somos inteiramente responsáveis pelas nossas vidas, pelo nosso mundo e pelo nosso planeta. Escrevi sobre estes assuntos durante o tempo em que estava tentando construir o Budismo Engajado.
Surgimento da Ordem do Interser
No ano de 1964, estabelecemos a Ordem do Interser. O seu surgimento é muito significativo. Tínhamos que somente estudar os Quatorze Preceitos ou os Treinamentos da Plena Consciência para compreender o motivo e como a Ordem do Interser foi estabelecida. Naquela época, a guerra transcorria ferozmente. Era um conflito entre ideologias.
A região norte e a região sul tinham cada uma delas a sua própria ideologia. Um lado era marxista-leninista e o outro era personalista e capitalista. Não somente lutávamos por ideologias importadas do exterior, mas também lutávamos com armas importadas do exterior – armas e bombas da URSS, da China e da América. Enquanto Budistas que praticavam a paz, a reconciliação e a irmandade não queríamos aceitar esta guerra. Vocês não podem aceitar uma guerra na qual irmãos matam irmãos com ideologias e armas importadas do exterior.
A Ordem do Interser nasceu como um movimento de resistência espiritual. Ela foi inteiramente baseada nos ensinamentos do Buddha. O Primeiro Treinamento da Plena
Consciência – desapego a pontos de vista e liberdade frente a todas as ideologias – era uma resposta direta para a guerra. Todos os combatentes estavam dispostos a morrer e a matar pelas suas crenças.
O Primeiro Treinamento da Plena Consciência afirmava: "Cientes do sofrimento criado pelo fanatismo e pela intolerância, estamos determinados a não ser idólatras sobre qualquer doutrina, teoria ou ideologia mesmo sendo elas Budistas..." Este foi o rugido do leão!
"Os ensinamentos Budistas são meios que nos orientam e nos ajudam a aprender a olhar profundamente e a desenvolver a nossa compreensão e a nossa compaixão.
Eles não são doutrinas com as quais se lute, mate ou morra". Os ensinamentos do Buddha constantes do Sutra Nipata a respeito de pontos de vista são muito claros. Não devemos nos apegar a nenhum ponto de vista e temos que transcender a todos eles.
A Visão Correta, antes de tudo, significa a ausência de todos os pontos de vista. O apego a pontos de vista é uma fonte de sofrimento. Suponha que você suba uma escada e no quarto degrau pense que já atingiu o grau mais elevado. Você estará preso a este pensamento! Você tem que se livrar do quarto degrau para ser capaz de ir para o quinto degrau. Sendo científico, os cientistas têm que se livrar do que descobriram para que possam obter uma verdade mais elevada. Este é o ensinamento do Buddha - Quando você considera algo como sendo a verdade e você se apega a ela, você deve abandoná-la para obter um nível mais elevado.
A noção básica do Budismo é o desapego com relação a pontos de vista. A sabedoria é não apegar-se a pontos de vista. O insight não é um ponto de vista. Nós deveríamos estar prontos para abandonar as nossas idéias para que o verdadeiro insight seja possível. Suponha que você tenha noções sobre a impermanência, o nãoself, o interser e as Quatro Nobres Verdades. Isto pode ser perigoso, pois isto tudo são somente pontos de vista. Você está muito orgulhoso porque conhece algo sobre as Quatro Nobres Verdades, sobre o interser, sobre a originação interdependente, sobre a plena consciência, sobre a concentração e sobre o insight. Mas, este ensinamento é somente um meio para que você obtenha o insight. Se você estiver apegado a estes ensinamentos, você estará perdido. O ensinamento sobre a impermanência, o não-self e o interser existem para ajudá-lo a obter o insight da impermanência, do não-self e do interser.
O Buddha afirmava "O meu ensinamento é como um dedo apontando para a Lua.
Você deve agir com habilidade. Você olha na direção apontada pelo meu dedo e poderá ver a Lua. Se você considerar o meu dedo como a Lua, você nunca verá a Lua". Assim o BuddhaDhamma não é a verdade. Ele é somente um instrumento para que você obtenha a verdade. Esta é uma noção elementar do Budismo. A guerra é o resultado do apego a pontos de vista e ao fanatismo. Se você olhar profundamente na natureza da guerra do Iraque, você poderá ver que ela é também uma guerra religiosa. As pessoas estão utilizando as suas crenças religiosas para sustentar esta guerra. O Presidente Bush é apoiado por muitos cristãos ortodoxos que preconizam a doutrina evangelista. A oposição aos combatentes e aos terroristas no Iraque é endossada pelas crenças cristãs com relação ao Islam. Assim, esta é de qualquer maneira uma guerra religiosa. A paz não poderá existir se mantivermos o nosso fanatismo com relação aos nossos pontos de vista.
A flor de lótus em um mar de fogo
No ano de 1965, escrevi um pequeno livro sobre a guerra do Vietnã. O seu título era Vietnam: Lotus in a Sea of Fire (Vietnã. Flor de Lótus em Mar de Fogo) publicado pela Editora Hill e Wong nos EUA e pela Editora Paz e Terra no Brasil. A guerra transcorria furiosamente no Vietnã e se parecia com um mar de fogo. Estávamos matando uns aos outros e permitindo que os bombardeiros norte-americanos viessem e destruíssem as nossas florestas e o nosso povo. Nós permitíamos a entrada das armas chinesas e russas. O Budismo tentava fazer algo contra a guerra. Aqueles entre nós que não aceitavam a guerra queriam fazer algo para resistir a ela. E algumas vezes tínhamos que nos imolar para dizer às pessoas que não queríamos aquela guerra.
Os budistas não possuíam estações de rádio ou de televisão. Não havia meios disponíveis com os quais eles pudessem se expressar. Quem quer que esteja me ouvindo, que seja você a minha testemunha: Eu não aceito esta guerra, deixe-me dizer isto mais uma vez antes que eu morra.
Os nossos inimigos não são os homens.
Estas são algumas linhas de meus antigos poemas. Os nossos inimigos são a raiva, o fanatismo e a violência. Os nossos inimigos não são os homens. Se matarmos os homens, com quem viveremos?
O movimento pela paz no Vietnã possuía um apoio internacional muito escasso, pois vocês mal podiam ouvir o que dizíamos. Por causa disso, tínhamos que nos imolar vivos para dizer a vocês que não queríamos aquela guerra. Por favor, nos ajudem a parar com esta guerra e com o assassinato de irmãos por irmãos!, dizíamos na época. O Budismo era como uma flor de lótus tentando sobreviver em um mar de fogo. Eu traduzi o livro Vietnã. Flor de Lótus em Mar de Fogo para a língua vietnamita e um amigo americano pertencente ao movimento pela paz me ajudou a trazer o livro para o Vietnã. O livro foi impresso de forma ilegal e muitos jovens tentaram divulgá-lo e distribuí-lo como um ato de resistência à guerra.
A nossa irmã Chan Khong, uma professora de biologia da Universidade Hue, trouxe uma cópia do livro para uma amiga. Ela foi presa e colocada em uma prisão porque ela possuía uma cópia deste livro. Posteriormente, ela foi transferida para uma prisão em Saigon.
A Escola de Serviço Social para a Juventude
Meus amigos jovens pediam que eu publicasse os meus poemas sobre a paz. Eles os denominavam de poesia anti-guerra. Eu concordei com estes jovens e disse-lhes que se quisessem publicá-los que o fizessem. Eles reuniram cinqüenta ou sessenta poemas sobre a paz e os submeteram ao governo do Vietnã do Sul. Cinqüenta e cinco poemas foram censurados. Somente alguns poucos restaram autorizados para publicação. No entanto, os nossos amigos não se desencorajaram e publicaram os poemas ilegalmente. Este livro de poesias vendeu muito bem! Mesmo alguns policiais da polícia secreta do Vietnã do Sul gostavam dele, porque estes policiais também sofriam com a guerra. Os meus amigos jovens iam até as livrarias e diziam "Vocês não devem deixar estes livros à mostra! Vocês devem escondê-los atrás do balcão". (risos)
As estações de rádio de Saigon, Hanói e Pequim começaram a atacar os poemas porque eles pediam a paz. Ninguém queria a paz. Todos queriam lutar até o fim. No ano de 1964, fundamos uma Escola de Serviço Social para a Juventude. Ensinamos milhares de jovens, incluindo monges e monjas, a irem para a zona rural e ajudarem os camponeses na reconstrução das suas aldeias. Ajudávamos os alunos em quatro aspectos: educação, saúde, economia e organização. Nossos trabalhadores sociais iam para as aldeias, brincavam com as crianças e ensinavam-nas a ler, a escrever e a cantar. Quando as pessoas das aldeias passavam a nos admitir em seu convívio, sugeríamos a construção de uma escola para as crianças. Uma família doava os bambus e outra família doava as folhas de côco para a construção da cobertura da escola. Assim, iniciávamos a construção de uma escola. Os nossos trabalhadores não ganhavam um salário. Após a construção da escola na aldeia, construíamos um dispensário onde podíamos distribuir remédios rudimentares que ajudassem os moradores das aldeias. Levávamos para as aldeias os estudantes de medicina ou um médico e tentávamos ajudar os moradores durante um ou dois dias. Também
organizávamos cooperativas e tentávamos ajudar os aldeões no trabalho da produção de artesanato para que ele pudesse aumentar a renda da família.
Tínhamos que começar com nós mesmos. A escola de Serviço Social para a Juventude foi fundada com o espírito de que não precisávamos esperar pela ajuda governamental.
Uma Nova Organização da Juventude na Europa
Ensinamos muitos jovens e inclusive jovens monges e monjas. Finalmente, tínhamos mais de dez mil trabalhadores desde Quang Tri até a região sul. Durante a guerra, éramos responsáveis por mais de dez mil órfãos. Todos estes jovens faziam parte do Budismo Engajado.
Neste ano de 2008, pretendemos estabelecer uma organização de jovens budistas na Europa – Jovens Budistas para uma Sociedade Saudável e Compassiva. Muitos jovens vêm até nós para participar de nossos retiros na Europa, na América e na Ásia.
Agora, queremos organizar estas pessoas. Elas utilizarão os Cinco Treinamentos para a Plena Consciência como a sua prática e se comprometerão com a ajuda na construção de uma sociedade mais saudável e mais compassiva. Se os meus amigos, aqui, sentem-se inspirados pela idéia, quando voltarem para as suas casas, por favor, convidem os jovens para estabelecer um grupo dos Jovens Budistas para uma Sociedade Saudável e Compassiva.
Nos mês passado de abril de 2008, fomos para a Itália e tivemos um dia de prática com os jovens na cidade italiana de Nápoles. Quinhentos jovens, homens e mulheres, que vieram até nós gostaram muito dessa idéia. Eles estão prontos para se comprometer com a prática da paz e com a ajuda na construção de uma sociedade mais saudável e mais compassiva.
Nossos jovens monges e monjas se envolverão também na construção dessa organização.
Fundação de um Instituto Europeu de Budismo Aplicado
Fundamos também um Instituto Europeu de Budismo Aplicado. Espero que, durante este retiro, nossa Irmã Annabel possa apresentar para vocês o Instituto Europeu de Budismo Aplicado. Deveremos também ter alguns campi do Instituto na América e na Ásia. Quem quer que tenha completado com sucesso o retiro de três meses em Plum Village ou no Monastério de Deer Park receberá um certificado emitido pelo Instituto.
Este Instituto irá oferecer muitos cursos interessantes. Vocês poderão ajudar na organização de cursos nas suas áreas de atuação e nós enviaremos um mestre do Dharma. Um exemplo de curso é aquele de vinte e um dias para jovens rapazes e moças que estão se preparando para constituir uma família. Nele, estes jovens aprenderão a como manter uma vida conjugal de forma satisfatória.
Haverá cursos para aqueles indivíduos que têm um diagnóstico de AIDS ou de câncer, de forma que eles possam aprender a viver com as suas doenças. Se você souber como aceitar e viver com a sua doença, você será capaz de viver vinte, trinta ou mais anos. Haverá, também, cursos para homens de negócios, para professores escolares, etc.
Estes certificados de conclusão dos cursos poderão ajudar a todos a se tornar professores oficiais do Dharma. Algum dia, vocês poderão ser inspirados a se tornar um professor do Dharma, a saírem de suas casas, a ajudarem as pessoas a serem uma continuação do Buddha.
Nos dias de hoje, utilizamos a expressão "Budismo Aplicado" que é somente outra maneira de se referir ao Budismo Engajado.

(Palestra transcrita por Greg Server e editada por Janelle Combelic e Irmã Annabel.)

quarta-feira, 4 de março de 2009

“Qual é meu desejo mais profundo na vida?”

No livro Serenando a Mente – O olhar budista sobre o medo e o terrorismo, Thich Nhat Hanh nos fala sobre “Alimentar a Paz”. Conta que “o Buda falou sobre a senda da emancipação em termos de consumo. No discurso sobre a Carne do Filho o Buda ensinou que nós consumimos quatro tipos de nutrimentos. Se sempre estivermos cientes do que consumimos e compreendermos a sua natureza, poderemos transformar o sofrimento dentro de nós e à nossa volta. Consumir conscientemente é essencial para pôr fim ao terrorismo”.
Em nossa reunião desse último domingo, estudamos o Terceiro Nutrimento: o nosso desejo mais profundo, cujo texto segue abaixo. Os demais nutrimentos são: 1o.) alimento comestível; 2o.) alimento sensorial e 4o.) consciência.

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O Terceiro Nutrimento: nosso desejo mais profundo
O terceiro tipo de alimento é a volição, nosso desejo mais profundo. Temos de perguntar-nos: “Qual é meu desejo mais profundo na vida?” Nosso desejo pode levar-nos rumo à felicidade ou rumo ao sofrimento. O desejo é um tipo de alimento que nos nutre e nos fornece energia. Se você tiver um desejo salutar, como a vontade de proteger a vida e o meio ambiente ou a de viver uma vida singela com tempo para cuidar de si mesmo e de seus entes queridos, ele lhe mostrará o caminho da felicidade. Se você persegue o poder, a riqueza, o sexo e a fama, achando que tudo isso lhe trará felicidade, na verdade está consumindo um alimento muito perigoso e que lhe trará muito sofrimento. Basta você olhar ao seu redor para ver que isto é verdade.
Em 1999, num retiro para executivos, muitos deles reconheceram que gente com grande riqueza e muito poder também sofre imensamente. Um empresário riquíssimo falou-nos de seu sofrimento e sua solidão. É o dono de uma grande empresa com mais de 300.000 empregados trabalhando no mundo inteiro, inclusive no Vietnã. Ele contou que pessoas muito ricas são com freqüência extremamente solitárias porque desconfiam dos demais. Elas acham que todos o que se aproximam delas declarando amizade estão apenas atrás de seu dinheiro e só buscam tirar vantagem. Essas pessoas sentem que não têm verdadeiros amigos. Os filhos de gente rica também sofrem profundamente; é comum seus pais não terem tempo para eles por estar muito preocupados em manter a riqueza.
Anos atrás, num retiro que realizamos em San Diego, na Califórnia, dois artistas famosos compareceram. Eram Peter, vocalista da banda Peter, Paul and Mary, e Julie Christie, atriz de cinema. Ambos disseram-nos que a fama não os fazia felizes. A felicidade deles decorria de serem capazes de retornar para o próprio coração e a própria mente e realmente exercitarem essa prática. Odette Lara, a estrela do cinema brasileiro, participou de um retiro na Califórnia no início da década de 80 e, mais tarde, escreveu-me uma carta. “Caro Thây. Eu pensava que minha árvore já estava morta porque durante muito tempo não tive desejo algum no meu coração. Esta manhã, porém, ao acordar, eu senti de repente um novo desejo, um novo rebento brotando da árvore que eu supunha sem vida”.
O Buda tinha um desejo muito profundo, mas não era de dinheiro, fama, poder nem sexo. Siddhartha, que se tornou o Buda, tivera o bastante disso quando era príncipe. Seu desejo era o de transformar todo o seu sofrimento, ser feliz e ajudar outros a sofrerem menos. Ele não queria seguir os passos de seu pai e virar rei ou político. Depois de 2.600 anos, o Buda ainda nos ajuda. Ao tornar-se monge, Siddhartha passou a viver de maneira muito simples: ele tinha apenas três túnicas e uma tigela e ia andando para todos os lugares. Assim viveu por quarenta anos. Trouxe felicidade para si e para inúmeras pessoas sem desejar a riqueza, sexo, poder nem fama.
Para ilustrar o terceiro tipo de alimento, o Buda deu o exemplo de um jovem que tinha muita vontade de viver, mas se deparou com dois homens fortes que queriam matá-lo. Eles o arrastaram até a borda de um poço com carvão em brasas e, apesar de ele ter lutado e resistido, finalmente conseguiram vencê-lo e o jogaram no poço. O Buda disse que nosso desejo é como aqueles dois homens fortes. Nossos desejos podem arrastar-nos para um poço de carvão em brasa ou podem conduzir-nos à felicidade, à saúde e à paz. Se permitir que o desejo de riqueza, sexo, poder, fama ou vingança lhe domine, você será arrastado por aqueles dois brutamontes para o poço cheio de brasas. Pergunte-se para onde seu desejo está lhe conduzindo. De que natureza é esse desejo? É de ter uma casa maior, melhor emprego, um diploma, fama, posição elevada na sociedade, ou é algo mais profundo? Não deixe que seu desejo seja pequeno. Ele deve ser muito grande. Se seu desejo não for grande, você será desviado por muitos desejos menores.
Tome alguns minutos para anotar seu desejo mais profundo. Quer viver como pessoa livre sem preocupações ou ânsias? O desejo de ser uma pessoa livre é muito valioso. Ser livre significa deixar de ser vítima do medo, da ira, da ânsia ou da suspeita. É isso o que você quer? Talvez você queira, mas não o bastante. Você tem outros desejos que se interpõem, por exemplo querer uma casa maior, um carro mais possante ou comida mais gostosa. Esses pequenos desejos o distraem de seu desejo mais nobre. Se o desejo de liberdade de Siddhartha não fosse vigoroso, ele não teria conseguido vencer os desejos sensuais. Se quiser realizar seu desejo profundo, você tem de desejá-lo realmente.
Pode ser que você deseje melhor comunicação com seu parceiro. Talvez você tenha dificuldades com essa pessoa e já não consiga olhar nos olhos dela. Talvez você deseje um relacionamento mais próximo com seus filhos. Quando você e sua família são felizes, você tem condições de ajudar outras pessoas e também seu país. Muito queremos ajudar nosso país e a raça humana como um todo. No entanto, distraímo-nos com facilidade porque nosso ambiente não nutre suficientemente esse desejo. Tornar-se monge é, de certa forma, como participar de uma revolução: é preciso estar disposto a desistir de tudo porque se deseja profundamente a libertação.
Cultivando a compaixão
Há quem passe a vida inteira tentando vingar-se. Este tipo de desejo ou volição resulta em grande sofrimento não só para outros como para a própria pessoa que o nutre. O ódio é um fogo que arde em toda alma e só pode ser mitigado pela compaixão. Mas onde encontramos compaixão? Ela não está à venda no supermercado. Se estivesse, bastaria levá-la para casa para se acabar com o ódio e a violência no mundo com muita facilidade. Mas só com nossa prática podemos produzir compaixão no próprio coração.
Neste momento, os Estados Unidos estão sendo consumidos pelo medo, o sofrimento e o ódio. Nem que seja para aliviarmos nosso sofrimento, temos de nos voltar para nós mesmos e tentar compreender por que estamos presos em tamanha teia de violência. O que faz com que os terroristas odeiem tanto que estão dispostos a sacrificar suas vidas e causar enorme sofrimento a outrem? Nós vemos que eles odeiam intensamente, mas o que subjaz a esse ódio? É claro que temos de achar uma maneira de parar a violência deles, e talvez até precisemos manter gente na prisão enquanto seu ódio se consome. Mas o importante é fazermos um exame profundo e perguntar-nos qual a responsabilidade que nos cabe pela injustiça no mundo?
Às vezes alguém a quem amamos – um filho, cônjuge ou pai – diz ou faz alguma coisa cruel e com isso nós sofremos e ficamos com raiva. Pensamos que apenas nós sofremos. Mas essa outra pessoa também está sofrendo. Se não estivesse sofrendo, não teria falado ou agido por raiva. A pessoa que amamos não sabe como se livrar do sofrimento. É por isso que ela despeja todo seu ódio e sua violência sobre nós. Nossa responsabilidade é gerar a energia de compaixão que acalma o coração e nos permite ajudar a outra pessoa. Se a punirmos, ela simplesmente sofrerá ainda mais.
Responder à violência com violência só pode resultar em mais violência, mais injustiça e mais sofrimento, não só para os outros como para nós. Há sabedoria em todos e em cada um de nós. Quando respiramos fundo, podemos alcançar essa semente da sabedoria dentro de nós. Sei que se a energia da sabedoria e da compaixão no povo americano fosse nutrida durante uma semana, isso bastaria para reduzir o nível de raiva e ódio no país. Recomendo que todos pratiquemos a calma e a concentração mental, regando as sementes de sabedoria e compaixão que já temos em nós e aprendendo a arte do consumo atentivo. Se conseguirmos fazer isso, faremos uma verdadeira revolução pacífica, o único tipo de revolução que pode ajudar-nos a sair desta situação tão difícil.
Talvez algumas pessoas achem misteriosa a vida dos monges. Mas tudo o que fazemos no mosteiro é exercitar-nos em produzir compaixão e contemplar todas as espécies com olhar compassivo e amoroso. Para isto nós devemos ser muito cuidadosos quanto ao que consumimos. Quer estejamos comendo uma tigela de arroz, desfrutando de um campo florido ou nutrindo nosso desejo mais profundo, nós o fazemos tão atentamente quanto possível, cientes de cada respiração.


segunda-feira, 2 de março de 2009

Energias Formadoras de Hábitos

A função da consciência armazenadora
É receber e manter
As sementes e as energias formadoras de hábitos.
De modo que elas possam se manifestar no mundo ou
permanecer inativas.
(Thich Nhat Hanh - Transformações na Consciência)

(Texto estudado pela sangha na reunião do domingo de carnaval 2009)
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As sementes que recebemos de nossos ancestrais, dos amigos e da sociedade ficam guardadas na nossa consciência, assim como a terra guarda as sementes que nela caem. Da mesma maneira que as sementes na terra, as sementes que estão na nossa consciência armazenadora estão escondidas de nós. Nem sempre entramos em contato com elas. Somente quando se manifestam na nossa consciência mental é que tomamos conhecimento delas. Quando nos sentimos felizes, podemos pensar que não existem sementes de raiva em nós. Mas tão logo alguém nos irrita, nossa semente da raiva se faz conhecer.
Energia formadora de hábito é um termo importante na psicologia budista. Nossas sementes carregam as energias formadoras de hábitos de milhares de anos. O termo em sânscrito para energia formadora de hábito, vashana, significa "permear", "impregnar". Para fazer chá de jasmim, é necessário pegar flores de jasmim, juntá-las com folhas de chá e colocá-las dentro de uma caixa, a qual deve permanecer fechada por várias semanas. A fragrância do jasmim penetra profundamente nas folhas e o chá então vai cheirar a jasmim, porque absorveu o aroma das flores. Nossa consciência armazenadora também tem uma grande capacidade de receber e absorver "fragrâncias" ou "perfumes".
Essa impregnação na nossa consciência, das energias formadoras de hábitos levadas pelas sementes, afeta nossos padrões de visão, sentimento e comportamento. As sementes que estão na nossa consciência se manifestam não só de forma psicológica mas também como objetos de nossa percepção - montanhas, rios, outras pessoas. Devido às energias formadoras de hábitos, não podemos perceber as coisas como realmente elas são. Interpretamos tudo o que vemos ou ouvimos em termos de nossas energias formadoras de hábitos. Se você amassa uma folha de papel, é difícil fazê-la ficar lisa novamente. Ela adquire a energia formadora do hábito de ficar amassada. Nós também somos assim.
Quando encontramos uma pessoa, o que encontramos realmente é a nossa própria energia formadora de hábito, que nos impede de ver qualquer coisa. Talvez, na primeira vez em que encontramos essa pessoa, tenhamos tido uma reação negativa a seu respeito. Com base nessa reação, formamos uma energia formadora de hábito ao nos relacionarmos com essa pessoa e, a partir de então, continuamos a fazê-lo da mesma forma. Toda vez que a encontramos, vemos a mesma velha pessoa, ainda que ela tenha mudado completamente. Nossas energias formadoras de hábitos nos mantêm incapazes de perceber a realidade do momento presente.
Somos influenciados pelas ações e crenças de nossos pais e da sociedade. Mas nossas reações às coisas têm seus próprios padrões e neles ficamos presos. Nossas energias formadoras de hábitos são fruto de nosso comportamento, formado por nossas reações às coisas e também por nosso ambiente. Quando uma pessoa é criada num determinado ambiente, uma energia formadora de hábito é formada. Hoje em dia, muitas crianças têm a energia formadora do hábito de assistir televisão. Quando são levadas a algum lugar onde não há televisão, ficam infelizes. Um menino que vio a Plum Village, ao descobrir que não havia televisão, queria que sua mãe o tirasse dali. Nós o convencemos a ficar a metade de um dia e, durante esse tempo, muitas outras crianças brincaram com ele. Depois de algumas horas, ele concordou em ficar mais tempo. Acabou ficando durante três semanas. Ele descobriu que poderia ser feliz sem televisão.
Essa é uma boa notícia. É possível mudarmos nossas energias formadoras de hábitos. E de fato, para as transformar, precisamos mudá-las. Muito embora tenhamos as melhores intenções de transformar a nós mesmos, não seremos bem-sucedidos enquanto não trabalharmos nossas energias formadoras de hábitos. A maneira mais fácil de fazê-lo é com uma Sangha, um grupo de pessoas que, juntas, praticam a plena consciência. Se nos colocarmos em um ambiente em que possamos praticar em profundidade com outras pessoas, seremos capazes de alterar nossas energias formadoras de hábitos. Pela prática da plena consciência, podemos identificar as sementes que estão em nós e reconhecer as energias formadoras de hábitos que as acompanham. Com plena consciência, podemos observar nossas energias formadoras de hábitos e começar a transformá-las.
Se nossa família e nossos amigos são instáveis, o comportamento deles também "impregna" a nossa consciência. Por isso, é importante escolher cuidadosamente com quem passamos nosso tempo. Quando conversamos com alguém que é infeliz, nossa consciência armazenadora recebe as sementes de seu sofrimento. Se não tivermos o cuidado de manter nossas sementes saudáveis durante a conversa, o sofrimento dessa pessoa vai regar as sementes de sofrimento que estão em nós e nos sentiremos exauridos.
A prática da plena consciência nos permite criar energias formadoras de hábitos novas e mais funcionais. Suponhamos que, ao ouvirmos uma certa frase, façamos uma careta. Não é queiramos fazê-la, ela apenas acontece automaticamente. Para substituir essa antiga energia formadora de hábito por uma nova, toda vez que ouvirmos aquela frase devemos respirar conscientemente. No início, o respirar consciente requer esforço. Não vem naturalmente. Entretanto, se continuarmos a praticar, a respiração consciente se tornará uma energia formadora de hábito. Da mesma maneira, criamos qualquer hábito novo. Quando você começa a escovar os dentes depois das refeições, no início, pode esquecer algumas vezes de fazê-lo. Depois de um tempo, isso se torna um hábito e você se sente desconfortável quando não os escova.
Algumas energias formadoras de hábitos são difíceis de transformar. Fumar é uma energia formadora de hábito difícil de deixar. A plena consciência é a chave. Sempre que tivermos fumando, devemos praticar a plena consciência para ficarmos cientes de que estamos fumando. Nossa conscientização dessa energia formadora de hábitos se aprofundará a cada dia, e veremos que estamos destruindo os nossos pulmões. Veremos, então, a ligação entre nossos pulmões, nossa saúde e as pessoas que amamos. Compreendemos que cuidar de nós mesmos é também cuidar dos que amamos. Então, pelo bem deles e pelo nosso, tomamos a decisão de cuidar do nosso corpo. A plena consciência promove esses tipos de discernimento.
Beber é outra energia formadora do hábito. Talvez, sempre que nos sentimos tristes, recorremos a um copo de vinho para esquecer a tristeza. Com plena consciência, cada vez que levantamos nosso copo de vinho, dizemos: "Eu sei que estou bebendo um copo de vinho". Quando nossa plena consciência ficar mais forte, quando bebemos o vinho podemos dizer: "Eu sei que estou triste". À medida que a nossa percepção aumenta e vemos com maior profundidade a tristeza que está por trás da nossa energia do hábito de tomar vinho, seremos capazes de começar a transformar as sementes de tristeza em nós.
A felicidade também pode ser uma energia formadora de hábito. Quando praticamos meditação andando, cada passo que damos nos traz paz e alegria. Quando começamos a praticar a meditação andando, podemos ter que fazer algum esforço. Não estamos ainda habituados a ela. Mas um dia começamos naturalmente a sentir paz e alegria. Então pensamos: "Por que estive sempre com tanta pressa?". Uma vez que nos sintamos à vontade com a meditação andando e outras maneiras de nos mover com plena consciência, essas práticas se tornarão um hábito salutar.
Embora existam energias positivas formadoras de hábito, parece que os hábitos negativos se estabelecem mais rapidamente que os positivos. Na escola, nossos filhos estão expostos tanto aos hábitos bons quanto aos maus, mas parece que aprendem os hábitos maus mais rapidamente. Demora muito tempo para uma pessoa jovem aprender a gostar de Shakespeare, mas não leva muito tempo para aprender a ingerir álcool. Quando você ensina algo para uma criança, talvez tenha que repetir muitas vezes até que a semente seja plantada solidamente na consciência dela. Quando você pinta uma parede, a primeira camada não é suficiente. Tem que pintar uma segunda e uma terceira vez. É assim que aprendemos.
Temos que reconhecer, abraçar e transformar nossas energias formadoras de hábito negativas e nos treinar para ter mais energias de hábito positivas. Tive a felicidade de, no início da minha vida, aprender o bom hábito de praticar meditação sentada todos os dias para me acalmar e cultivar mais estabilidade, solidez e liberdade. Muitos de nós em Plum Village aprendemos o hábito de voltar à nossa respiração e sorrir toda vez que ouvimos o sino tocar. Esses hábitos positivos precisam ser cultivados, porque nossos hábitos negativos sempre nos empurram para fazer e dizer coisas que causam sofrimento a nós e aos outros.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Encontrando a nossa verdadeira moradia

Construindo a nossa Terra da Magnífica Felicidade Shariputra, todos que nascem em Sukhavati possuem naturalmente a qualidade da nãoretrogressão. Entre as pessoas que vivem naquela Terra, muitas delas realizarão a Budeidade em somente mais uma vida. O número destes bodhisattvas é infinito e não há como calculá-lo. Este número somente pode ser expresso através da palavra ilimitado. (leia abaixo o texto completo, traduzido pelo nosso amigo de sangha Fernando Domicildes Carvalho, a quem muito agradecemos pela oportunidade de podermos compartilhar esses maravilhos ensinamentos do Thây)
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A rede de segurança em Sukhavati "Avaivartika" é a palavra sânscrita traduzida por não-retrogressão. Isto significa que quando alguém nasce na Terra Pura, ele somente poderá avançar e não poderá regredir. Ele não poderá cair de volta no mundo do sofrimento, afogando-se na escravidão do apego. Por que isto ocorre? Há algo como uma rede estendida em torno de Sukhavati, de tal sorte que, não importando os nossos tropeços e as nossas quedas, nós não cairemos muito distante desta Terra Pura. O que é esta rede de segurança que nos segura de maneira que nós não podemos cair de volta no mundo do sofrimento? Para um praticante, a prática da plena consciência é a nossa proteção fundamental. Com a plena consciência, nós não nos afogaremos no sofrimento da raiva, da aversão, do desejo e do medo. O corpo da Sangha nos protege de perdermos o controle devido às nossas atividades habituais. Nos limites do corpo da Sangha, somos protegidos pela plena consciência de nossos membros praticantes. Quando alguém se sente um pouco fraco e deficiente em firmeza, os outros praticantes podem ser enérgicos e resolutos em suas práticas. Nós podemos apoiar uns aos outros e podemos amparar os seres ao nosso redor com a nossa própria prática da plena consciência e com o nosso poder de ver profundamente e de transformar o nosso sofrimento em paz e em felicidade. Assim, a prática da plena consciência é a nossa rede de segurança e a prática de tomar refúgio o corpo da Sangha é, também, a nossa rede de proteção. Avançando no caminho da Prática Quem quer que renasça em Sukhavati é automaticamente incapaz de regredir. Entre estes seres, há muitos bodhisattvas que se tornarão Buddhas em suas vidas futuras. Você poderá ir a qualquer terra que você quiser para preparar-se para tornar-se um Buddha. Antes do nascimento do Buddha Shakyamuni, ele havia sido um bodhisattva. O seu último nascimento foi no mundo "saha" e ele se tornou um Buddha neste mundo. Em Sukhavati, o número destes bodhisattvas que se tornarão Buddhas em seus próximos nascimentos é infinitamente vasto e nenhum método de cálculo será capaz de defini-lo. A palavra sânscrita é "asangika" que significa "inumerável". Regredir significa mover-se para o passado. Quando vivemos com uma Sangha e quando praticamos durante as vinte e quatro horas do dia com uma comunidade de praticantes, mesmo que tivermos dias difíceis sabemos que estamos ainda avançando em nosso caminho da prática. Persistir com a Sangha já é um movimento de avanço. Quando o sofrimento surge, nós praticamos. Nós não vemos o nosso sofrimento como uma regressão. É somente quando não praticamos que podemos regredir no caminho espiritual. Se sofrermos e praticarmos, aprenderemos a partir do nosso sofrimento e seremos mais fortes e mais estáveis. Se sofrermos e formos capturados, e perdermos a nossa plena consciência, a nossa concentração e o nosso discernimento, então estaremos regredindo em nosso caminho da prática. Se tivermos sorte e um corpo de Sangha forte, nós não cairemos muito e seremos capazes de avançar novamente. Delicados e nobres companheiros Shariputra, quando os seres vivos ouvem falar de Sukhavati em qualquer lugar que estejam, eles deveriam criar a aspiração suprema de nascer em tal terra. Estas são palavras de encorajamento e de exortação proferidas pelo Buddha. Ele fornece uma boa razão pela qual nós deveríamos aspirar nascer em Sukhavati: Por quê? Porque, tendo nascido naquela terra, eles serão capazes de viver e de estar muito próximos de pessoas de elevada bondade. Neste sutra, há muitas sentenças interessantes, porém, entre todas elas, esta é a de maior interesse. Não é muito importante que, quando nascemos naquela terra, nós possuiremos ouro, prata, lagoas, lagos, brisa, espécies maravilhosas de pássaros, fileiras de árvores ou outros objetos maravilhosos. Sukhavati é bela acima de tudo porque é o local onde seres nobres e virtuosos se reúnem. Esta é a principal razão pela qual queremos nascer naquela terra. Quando estivermos naquela terra, seremos capazes de viver próximos de inúmeros seres nobres. Embora o Buddha não afirme isto explicitamente, sabemos que o Buddha Amitabha é alguém que possui uma notável habilidade de construir uma Sangha. Se o Buddha Amitabha não for nobre, então quem gostaria de ir para a Terra Pura com o objetivo de trabalhar e viver com ele? Por causa de sua nobreza, quase todos os outros seres que também são nobres gostariam de ir reunir-se naquele local. A chave para o sucesso na construção de uma Sangha é ser capaz de reunir seres nobres e generosos no local em que vivemos. De acordo com o sutra, os seres vêm e vivem juntos em um único local. Todos queremos ser como o Buddha Amitabha. Quando estabelecemos uma Terra Pura ou um centro de prática, queremos que todos os seres bondosos do mundo reúnam-se neste local para trabalhar conosco. Sabemos que se formos ditatoriais e difíceis de conviver, e não soubermos utilizar a fala amorosa, os seres bondosos não virão viver conosco. Sabendo que há numerosos habitantes virtuosos na terra da Imensa Felicidade, descobrimos que o Buddha Amitabha é um ser nobre que pode atrair todos aqueles seres bondosos para bem próximo de si mesmo. Quando ouvimos sobre o Buddha Amitabha e a sua terra, todos queremos ir para a sua terra com o objetivo de viver e estar próximos dos seres mais nobres do mundo. Pessoas de elevada bondade são pessoas que possuem um coração muito generoso, sementes firmes de generosidade em suas consciências e somente gostam de pensar, de falar e de fazer aquilo que é saudável. A palavra "bondade" em chinês significa literalmente "saudável". Em Sukhavati, as pessoas somente pensam sobre o que está relacionado com a bondade e os seus pensamentos são saudáveis. Por que isto ocorre? Porque o ambiente em torno delas apresenta muitas condições que permitem entrar em contato e irrigar as sementes saudáveis que estão em nós. Por exemplo, quando ouvimos os pássaros cantando, lembramos dos ensinamentos maravilhosos dos Cinco Poderes – as cinco fontes da energia espiritual que são a fé, a diligência, a plena consciência, a concentração e o insight. Irrigando as sementes da Terra Pura Quando a nossa mente encontra-se leve, livre e feliz, os três caminhos obscuros do reino dos infernos, do reino dos fantasmas famintos e do reino dos animais não surgem. Estas três circunstâncias obscuras podem manifestar-se em nós a qualquer momento do dia se perdermos a nossa plena consciência, a nossa concentração e o nosso insight. O reino dos infernos, o reino dos fantasmas famintos e o reino dos animais estão todos presentes em nós mesmos na forma de sementes. Se não estivermos plenamente conscientes e não praticarmos, então estas três circunstâncias nocivas podem manifestar-se a qualquer momento. Em todo instante em que nos tornamos furiosos, o fogo do reino dos infernos irrompe em chamas e nos queima. Quando o reino dos infernos manifesta-se, então desaparece automaticamente a Terra Pura. É justamente quando a escuridão se manifesta, a luz não está mais presente. Quando o reino dos infernos desaparece, então a Terra Pura se manifesta. As sementes da Terra Pura estão presentes em todos nós, mas também as sementes dos três caminhos ou circunstâncias nocivas. Se quisermos manter a Terra Pura, então teremos que fazer algo para que a Terra Pura se revele a si própria no momento atual. Se quisermos manter os três caminhos nocivos, então teremos que fazer algo para que o reino dos infernos, o reino dos fantasmas famintos e o reino dos animais se revelem a si próprios no momento atual. Escrevi em um poema: "Gritei, exausto, do inferno de Avici". Estamos todos neste inferno e também sabemos que quando o inferno está presente em nós, a Terra Pura não pode se manifestar. No passado, fomos também fantasmas famintos. Corremos de um lugar para outro sonhando em encontrar um pouco de amor, de compreensão e um local de refúgio. As sementes dos fantasmas famintos encontram-se em nossas próprias mentes e em nenhum outro lugar. Quando estamos desorientados e perambulando, nos tornamos fantasmas famintos. Quando estamos dominados pelos nossos desejos por prazeres materiais, nos tornamos um animal selvagem que não conhece nada além de comer e de caçar após a sua satisfação sexual. Se a Terra Pura desaparece de nossas vidas é porque as sementes do reino dos infernos, do reino dos fantasmas famintos e do reino animal estão se manifestando nas formas com as quais falamos, agimos e pensamos. Nosso desejo mais elevado é construir uma Sangha Qual é o meu desejo mais elevado? Não é construir um enorme templo, edificar uma imensa estátua do Buddha, possuir muitas e gordas contas bancárias ou, ainda, possuir um título de doutor. Não quero comandar uma congregação budista. Não quero comandar a Sangha ou a Terra Pura. Quero somente ser capaz de construir uma Terra Pura para que pessoas nobres possam vir e viver juntas e que essa terra seja um local de refúgio para cada indivíduo. Se a Terra Pura está em nossas próprias mentes, então onde quer que possamos ir a Terra Pura se revelará por si mesma. As pessoas que possuem a Terra Pura em suas mentes possuem uma qualidade humanitária muito elevada. Neste sutra, estas pessoas são denominadas "pessoas de elevada bondade ou elevada virtude". Estas pessoas possuem a sabedoria que as conduz para além do desejo por fama ou por lucro. Alguém que apresenta a característica de elevada bondade é alguém com quem se pode conviver facilmente. Sukhavati é o local onde muitas pessoas de elevada bondade vêm viver em conjunto. Esta sentença do sutra expressa as nossas mais profundas aspirações porque aquilo que mais nos interessa e mais nos inspira é sermos capazes de construir um centro de prática para que as pessoas nobres do mundo inteiro possam se reunir e viver felizes em conjunto. Esta localidade poderá ser um local de refúgio para cada uma e também para incontáveis outras pessoas. Em nossos mais profundos desejos possuímos também a semente do Buddha Amitabha. Esta semente é a aspiração profunda para estabelecer uma morada onde as pessoas queiram viver, isto é, um ambiente que seja favorável para a prática. Se houver muitas pessoas de elevada bondade que vêm e vivem juntas, então a Terra Pura se revelará por si própria e nós não precisaremos procurá-la. Quando podemos nos sentar próximos de alguém que seja nobre, percebemos que nos sentimos felizes. Assim, o quanto felizes seremos se formos circundados por incontáveis pessoas gentis? Estas pessoas somente necessitam vir e, sem fazerem coisa alguma, o local onde elas estão já é a Terra Pura, já é o Reino de Deus. Se as pessoas não nobres sentam-se juntas por somente alguns minutos, a atmosfera se torna sufocante. O reino dos infernos se manifestará imediatamente tão logo estas pessoas não nobres se reunirem. Por isso, vemos como o reino dos infernos ou a Terra Pura podem manifestar-se a partir das mentes das pessoas. Cada pessoa que pratique um caminho espiritual aprecia e quer estabelecer uma Terra Pura. Entretanto, o estabelecimento de uma Terra Pura não é o trabalho de uma pessoa sozinha, mesmo se esta pessoa for um ser completamente iluminado. Podemos ver que o mundo de Sukhavati não é o trabalho do Buddha Amitabha sozinho. Não devemos pensar que um ser isolado poderia estabelecer uma Terra Pura. Estabelecemos uma Terra Pura com a energia combinada do corpo da Sangha. Se não formos uma pessoa nobre, não teremos a capacidade de ouvir profundamente, de proferir a fala amorosa, de saber como cooperar com as outras pessoas e seremos ditatoriais. Quem virá trabalhar conosco e como poderemos construir uma Terra Pura? Temos que indagar a nós mesmos: "Tenho a capacidade de ajudar a construir uma Terra Pura e de edificar uma Sangha de praticantes nobres?" Temos a tendência de pensar que quando iniciamos no cargo de comando de um centro de prática, não temos mais que ser obedientes à nossa irmandade no Dharma e que teremos toda a autoridade de tomar todas as decisões. O desejo de comandar uma Terra Pura é um desejo muito ingênuo. Se não estivermos felizes vivendo com a nossa irmandade no Dharma, como poderemos estabelecer uma Terra Pura? As pessoas que vêm para a nossa Terra Pura irão embora e estaremos totalmente abandonados. Uma pessoa sozinha nunca poderá estabelecer uma Terra Pura. Olhe em torno de você e poderá ver alguém assim. Esta pessoa possui uma forte aspiração para estabelecer uma Terra Pura, embora ela não seja muito feliz, não seja tolerante, não seja paciente na audição profunda das outras pessoas, seja incapaz de falar compassivamente e inábil para trabalhar com as outras pessoas. Esta pessoa somente deseja que as outras pessoas trabalhem de acordo com as próprias idéias dela. Uma pessoa como esta não pode estabelecer uma Terra Pura e não pode ser denominada um bodhisattva que se tornará um Buddha na próxima existência. Quem poderá nos dizer se nos tornaremos um Buddha na próxima existência? Ninguém precisa nos dizer. Tudo que precisamos fazer é olhar para dentro de nossas próprias mentes e saberemos imediatamente. De agora em diante, quando lermos ou ouvirmos estas sentenças - "Shariputra, quando os seres vivos ouvirem falar sobre Sukhavati em qualquer lugar, eles deveriam criar a elevada aspiração de nascer em tal terra. Por quê? Porque após ter renascido naquela terra eles serão capazes de viver e estar bem próximos de muitos seres de elevada bondade" - vamos parar e olhar profundamente para a nossa própria capacidade de estabelecer uma Terra Pura. A Terra Pura é o local onde pessoas bem estabelecidas na bondade vêm viver juntas. Condições suficientes que nos permitem encontrar a Terra Pura Shariputra, não se pode nascer nesta terra sem méritos ou raízes saudáveis. Ao ler esta sentença do sutra, poderemos nos sentir desesperançados. Porém, outras sentenças seguintes irão despertar novamente o nosso entusiasmo e a nossa alegria. Há sentenças que nos dizem que necessitamos somente de relembrar o nome do Buddha uma única vez ou algumas vezes e teremos as condições suficientes para renascer na Terra Pura. Inicialmente, estas duas idéias – com poucos méritos não se pode renascer na Terra Pura e somente relembrando o nome do Buddha Amitabha uma única vez se pode renascer na Terra Pura – podem parecer contraditórias. Devemos acreditar nelas e nos admirar com estas sentenças. Na verdade, estas sentenças divergentes são os dois lados de uma mesma moeda.
Por "mérito", queremos dizer boa ventura e causas e condições saudáveis. Raízes saudáveis são raízes em beleza e em bondade. Se estas raízes forem insuficientes, teremos poucas esperanças de renascer na Terra Pura. Raízes são também algumas vezes denominadas sementes. Uma flor de lótus pode brotar tanto pelo cultivo de uma semente de lótus quanto pelo plantio de um pedaço de um tubérculo de lótus. Se você quiser renascer na Terra Pura, você necessitará possuir as sementes ou as raízes da Terra Pura, sementes de beleza e de bondade que plantamos em nossa consciência. Isto poderá ocorrer quando formos a um monastério para demonstrar o nosso respeito pelos Seres Despertos, oferecermos recursos para ajudar um órfão, realizarmos doações para monges e para monjas, desviarmos e salvarmos a vida de uma formiga ou proferirmos em voz alta a recordação do nome do Buddha - "Namo Buddhaya". Estas pequenas ações já são o estabelecimento das raízes saudáveis.
Se alguém estiver passeando por um monastério e proferir as palavras "Namo Buddhaya", esta será a condição que poderá conduzi-lo a se tornar um Buddha no futuro. Mesmo que a semente ou as raízes sejam extremamente pequenas, estas ações foram plantadas em nossa mente e, sem dúvida, elas se tornarão as causas e as condições que nos colocarão em contato com o caminho da prática e da realização do caminho da prática. Podemos refletir sobre a sentença que afirma que alguém que possui raízes ou méritos saudáveis em número insuficiente possui pouca chance de renascer na Terra Pura. Em Plum Village, por exemplo, encontramos estudantes de meditação da Rússia, da Noruega e da África do Sul. Há algumas pessoas que vivem em Paris e que precisariam somente embarcar em um vôo de uma hora para Plum Village, mas elas não vêm. Algumas pessoas que vivem muito próximas de uma Terra Pura podem nunca ter ouvido falar sobre ela e podem nunca possuir as condições corretas para virem para cá. E mesmo que as condições sejam corretas, elas vivem a muitos quilômetros de distância do local que desejariam encontrar. Um provérbio chinês afirma "Se as condições forem insuficientes, mesmo que nos sentamos um em frente ao outro, nunca teremos a chance de nos encontrarmos". Qual é, então, a diferença entre as condições suficientes e as insuficientes? Não é uma questão de distância. Trinta mil pessoas na Suíça foram ver o filme Steps of Mindfulness (Passos de Plena Consciência) que descreve uma visita de uma delegação de Plum Village a Índia no ano de 1997. O que fez com que estas pessoas escolhessem ver este filme? Algumas delas que viram o filme foram para suas casas e compraram livros sobre a plena consciência para ler. Algumas delas escreveram para Plum Village e agendaram as suas visitas ao monastério. Por que elas fizeram isto mesmo que nunca tivessem estado antes em um monastério? Porque elas tiveram a oportunidade de ver um filme no qual observaram monges e monjas e ouviram inúmeras palestras sobre o Dharma. Este filme irrigou as sementes em suas consciências e, quando elas chegaram posteriormente em suas casas, procuraram iniciar a sua prática. Ir para a Terra Pura não é difícil. Precisamos somente das causas e das condições corretas. Precisamos somente saber que há uma Terra Pura lá, pegar o telefone e dizer: "Alô. É da Terra Pura? Eu gostaria de fazer uma visita e praticar por uma semana". O bodhisattva que atender ao telefone dirá: "Tudo bem. O retiro de inverno ainda tem vagas disponíveis". É tão fácil assim! Tudo o que você precisa é de causas e de condições suficientes. Se você não as possuir, mesmo que seja vizinho da Terra Pura, você não virá. Se você possuir as causas e as condições corretas, você virá mesmo que viva a milhares de quilômetros de distância. Tudo o que você precisa é de um e-mail, de um fax ou de uma chamada telefônica e você já estará voando em direção a uma Terra Pura. Olhando profundamente, vemos que entrar em uma Terra Pura ou no reino de Deus não é uma questão de tempo ou de espaço. É uma questão de causas e de condições suficientes. A principal condição que precisamos é a nossa própria aspiração de viver na beleza e na paz, de viver alegre e profundamente o momento presente e de cultivar a nossa compreensão e o nosso amor. Com estas intenções saudáveis não precisamos viajar muito distante para entrar na Terra Pura porque a Terra Pura estará disponível imediatamente. O Reino de Deus está em nossas mentes e o Reino de Deus se manifesta em tudo que tocamos. Viver maravilhosamente e feliz em qualquer situação em que nos encontramos nos levará certamente em uma bela direção. Viver colericamente e demonstrando aversão nos levará para uma direção diferente. Nunca será tarde para começar a semear as sementes e as intenções saudáveis. Não é uma questão de tempo, mas uma questão de dar um passo na realização da aspiração de caminhar na direção da terra santa e da terra da Suprema Felicidade. Caminhar na direção da Terra Pura não é diferente de entrar na Terra Pura – chegaremos nesta Terra Pura imediatamente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Neste Carnaval, apenas...

Foto do quadro originalmente escrito por Thich Nhat Hanh para a Sangha Plena Consciência - o original encontra-se exposto em nossa sala de meditação

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Conhecendo as Escolas Budistas

Conforme se espalhou pela Ásia ao longo dos séculos, a comunidade buddhista — a Sangha — adaptou-se às necessidades locais e fez surgir diversas tradições, ou escolas. Todas as tradições autênticas possuem um núcleo comum de ensinamentos, como as quatro nobres verdades, o nobre caminho óctuplo etc. Cada escola enfatiza determinados aspectos e práticas do ensinamento buddhista. Conhecendo as diversas tradições, também podemos apreciar um pouco das belíssimas culturas orientais. No sul e sudeste asiático, a tradição predominante é a Theravada. Na China, na Coréia, no Japão e no Vietnã, desenvolveu-se o grande veículo ou Mahayana, cujas vertentes mais conhecidas são a escola Zen e a escola Terra Pura. Já no Tibet, Nepal, Mongólia e outras regiões próximas ao Himalaya, o buddhismo tântrico ou Vajrayana fez surgir quatro escolas — Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug.

Leia, abaixo, um pouco mais sobre cada uma dessas Escolas, lembrando que a tradição do nosso Mestre está mais vinculada à Escola Zen - uma das principais tradições do buddhismo Mahāyāna

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Ch’an / Zen
A escola Zen é uma das principais tradições do buddhismo Mahāyāna ou Grande Veículo. Seus ensinamentos enfatizam a meditação sentada e o uso de paradoxos para revelar nossa verdadeira natureza.O Zen teve um papel fundamental para a formação da cultura, filosofia e religiosidade do extremo oriente, especialmente na China, na Coréia, no Japão e no Vietnã.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, Dhyāna signfica Meditação. Em chinês, esta palavra foi traduzida como Ch'an, em japonês como Zen, em coreano como Sŏn e em vietnamita como Thiền.

Theravāda
A escola Theravāda é a tradição buddhista mais antiga ainda presente nos dias de hoje. Seus ensinamentos de meditação são baseados em uma grande coleção de textos escritos em pāli, um antigo idioma indiano.Esta escola é predominante nos países do sul e sudeste asiático (Myanmar, Śrī Lańkā, Camboja, Thailândia e Laos).
Etimologia: em pāli, uma antiga língua indiana, a palavra Theravāda signfica Ensinamento dos Antigos. Os seguidores desta escola são chamados theravādins.

Terra Pura
As escolas Terra Pura estão entre as principais tradições do buddhismo Mahāyāna ou Grande Veículo. O foco de suas práticas é a recitação do nome de Amitābha, o Buddha da Vida e Luz Infinitas.Estas escolas são as tradições buddhistas mais populares no extremo oriente. Na China, o buddhismo Terra Pura fundiu-se com a escola Ch'an. No Japão, o buddhismo Terra Pura tem duas escolas principais, Jōdo e Jōdo Shin.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, a expressão Kşetra Śuddhi significa Terra Pura ou Campo Puro. Em chinês, esta expressão foi traduzida como Ching-t'u e em japonês como Jōdo.

Budismo Tibetano
O buddhismo tântrico ou Vajrayāna é a tradição buddhista predominante no Tibet, Nepal, Butão, Mongólia e norte da Índia. Suas práticas enfatizam o uso de visualização, recitação e meditação.O buddhismo tibetano possuiu quatro escolas — Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug. O Vajrayāna também foi influente na China e no Japão através de duas escolas, a Mi-tsung/Shingon e a T'ien-t'ai/Tendai.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, Vajrayāna signfica Veículo Adamantino ou Indestrutível. No Japão, o buddhismo esotérico é conhecido como Mikkyō ou Ensinamento Secreto.


Fonte: http://www.dharmanet.com.br