segunda-feira, 2 de março de 2009

Energias Formadoras de Hábitos

A função da consciência armazenadora
É receber e manter
As sementes e as energias formadoras de hábitos.
De modo que elas possam se manifestar no mundo ou
permanecer inativas.
(Thich Nhat Hanh - Transformações na Consciência)

(Texto estudado pela sangha na reunião do domingo de carnaval 2009)
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As sementes que recebemos de nossos ancestrais, dos amigos e da sociedade ficam guardadas na nossa consciência, assim como a terra guarda as sementes que nela caem. Da mesma maneira que as sementes na terra, as sementes que estão na nossa consciência armazenadora estão escondidas de nós. Nem sempre entramos em contato com elas. Somente quando se manifestam na nossa consciência mental é que tomamos conhecimento delas. Quando nos sentimos felizes, podemos pensar que não existem sementes de raiva em nós. Mas tão logo alguém nos irrita, nossa semente da raiva se faz conhecer.
Energia formadora de hábito é um termo importante na psicologia budista. Nossas sementes carregam as energias formadoras de hábitos de milhares de anos. O termo em sânscrito para energia formadora de hábito, vashana, significa "permear", "impregnar". Para fazer chá de jasmim, é necessário pegar flores de jasmim, juntá-las com folhas de chá e colocá-las dentro de uma caixa, a qual deve permanecer fechada por várias semanas. A fragrância do jasmim penetra profundamente nas folhas e o chá então vai cheirar a jasmim, porque absorveu o aroma das flores. Nossa consciência armazenadora também tem uma grande capacidade de receber e absorver "fragrâncias" ou "perfumes".
Essa impregnação na nossa consciência, das energias formadoras de hábitos levadas pelas sementes, afeta nossos padrões de visão, sentimento e comportamento. As sementes que estão na nossa consciência se manifestam não só de forma psicológica mas também como objetos de nossa percepção - montanhas, rios, outras pessoas. Devido às energias formadoras de hábitos, não podemos perceber as coisas como realmente elas são. Interpretamos tudo o que vemos ou ouvimos em termos de nossas energias formadoras de hábitos. Se você amassa uma folha de papel, é difícil fazê-la ficar lisa novamente. Ela adquire a energia formadora do hábito de ficar amassada. Nós também somos assim.
Quando encontramos uma pessoa, o que encontramos realmente é a nossa própria energia formadora de hábito, que nos impede de ver qualquer coisa. Talvez, na primeira vez em que encontramos essa pessoa, tenhamos tido uma reação negativa a seu respeito. Com base nessa reação, formamos uma energia formadora de hábito ao nos relacionarmos com essa pessoa e, a partir de então, continuamos a fazê-lo da mesma forma. Toda vez que a encontramos, vemos a mesma velha pessoa, ainda que ela tenha mudado completamente. Nossas energias formadoras de hábitos nos mantêm incapazes de perceber a realidade do momento presente.
Somos influenciados pelas ações e crenças de nossos pais e da sociedade. Mas nossas reações às coisas têm seus próprios padrões e neles ficamos presos. Nossas energias formadoras de hábitos são fruto de nosso comportamento, formado por nossas reações às coisas e também por nosso ambiente. Quando uma pessoa é criada num determinado ambiente, uma energia formadora de hábito é formada. Hoje em dia, muitas crianças têm a energia formadora do hábito de assistir televisão. Quando são levadas a algum lugar onde não há televisão, ficam infelizes. Um menino que vio a Plum Village, ao descobrir que não havia televisão, queria que sua mãe o tirasse dali. Nós o convencemos a ficar a metade de um dia e, durante esse tempo, muitas outras crianças brincaram com ele. Depois de algumas horas, ele concordou em ficar mais tempo. Acabou ficando durante três semanas. Ele descobriu que poderia ser feliz sem televisão.
Essa é uma boa notícia. É possível mudarmos nossas energias formadoras de hábitos. E de fato, para as transformar, precisamos mudá-las. Muito embora tenhamos as melhores intenções de transformar a nós mesmos, não seremos bem-sucedidos enquanto não trabalharmos nossas energias formadoras de hábitos. A maneira mais fácil de fazê-lo é com uma Sangha, um grupo de pessoas que, juntas, praticam a plena consciência. Se nos colocarmos em um ambiente em que possamos praticar em profundidade com outras pessoas, seremos capazes de alterar nossas energias formadoras de hábitos. Pela prática da plena consciência, podemos identificar as sementes que estão em nós e reconhecer as energias formadoras de hábitos que as acompanham. Com plena consciência, podemos observar nossas energias formadoras de hábitos e começar a transformá-las.
Se nossa família e nossos amigos são instáveis, o comportamento deles também "impregna" a nossa consciência. Por isso, é importante escolher cuidadosamente com quem passamos nosso tempo. Quando conversamos com alguém que é infeliz, nossa consciência armazenadora recebe as sementes de seu sofrimento. Se não tivermos o cuidado de manter nossas sementes saudáveis durante a conversa, o sofrimento dessa pessoa vai regar as sementes de sofrimento que estão em nós e nos sentiremos exauridos.
A prática da plena consciência nos permite criar energias formadoras de hábitos novas e mais funcionais. Suponhamos que, ao ouvirmos uma certa frase, façamos uma careta. Não é queiramos fazê-la, ela apenas acontece automaticamente. Para substituir essa antiga energia formadora de hábito por uma nova, toda vez que ouvirmos aquela frase devemos respirar conscientemente. No início, o respirar consciente requer esforço. Não vem naturalmente. Entretanto, se continuarmos a praticar, a respiração consciente se tornará uma energia formadora de hábito. Da mesma maneira, criamos qualquer hábito novo. Quando você começa a escovar os dentes depois das refeições, no início, pode esquecer algumas vezes de fazê-lo. Depois de um tempo, isso se torna um hábito e você se sente desconfortável quando não os escova.
Algumas energias formadoras de hábitos são difíceis de transformar. Fumar é uma energia formadora de hábito difícil de deixar. A plena consciência é a chave. Sempre que tivermos fumando, devemos praticar a plena consciência para ficarmos cientes de que estamos fumando. Nossa conscientização dessa energia formadora de hábitos se aprofundará a cada dia, e veremos que estamos destruindo os nossos pulmões. Veremos, então, a ligação entre nossos pulmões, nossa saúde e as pessoas que amamos. Compreendemos que cuidar de nós mesmos é também cuidar dos que amamos. Então, pelo bem deles e pelo nosso, tomamos a decisão de cuidar do nosso corpo. A plena consciência promove esses tipos de discernimento.
Beber é outra energia formadora do hábito. Talvez, sempre que nos sentimos tristes, recorremos a um copo de vinho para esquecer a tristeza. Com plena consciência, cada vez que levantamos nosso copo de vinho, dizemos: "Eu sei que estou bebendo um copo de vinho". Quando nossa plena consciência ficar mais forte, quando bebemos o vinho podemos dizer: "Eu sei que estou triste". À medida que a nossa percepção aumenta e vemos com maior profundidade a tristeza que está por trás da nossa energia do hábito de tomar vinho, seremos capazes de começar a transformar as sementes de tristeza em nós.
A felicidade também pode ser uma energia formadora de hábito. Quando praticamos meditação andando, cada passo que damos nos traz paz e alegria. Quando começamos a praticar a meditação andando, podemos ter que fazer algum esforço. Não estamos ainda habituados a ela. Mas um dia começamos naturalmente a sentir paz e alegria. Então pensamos: "Por que estive sempre com tanta pressa?". Uma vez que nos sintamos à vontade com a meditação andando e outras maneiras de nos mover com plena consciência, essas práticas se tornarão um hábito salutar.
Embora existam energias positivas formadoras de hábito, parece que os hábitos negativos se estabelecem mais rapidamente que os positivos. Na escola, nossos filhos estão expostos tanto aos hábitos bons quanto aos maus, mas parece que aprendem os hábitos maus mais rapidamente. Demora muito tempo para uma pessoa jovem aprender a gostar de Shakespeare, mas não leva muito tempo para aprender a ingerir álcool. Quando você ensina algo para uma criança, talvez tenha que repetir muitas vezes até que a semente seja plantada solidamente na consciência dela. Quando você pinta uma parede, a primeira camada não é suficiente. Tem que pintar uma segunda e uma terceira vez. É assim que aprendemos.
Temos que reconhecer, abraçar e transformar nossas energias formadoras de hábito negativas e nos treinar para ter mais energias de hábito positivas. Tive a felicidade de, no início da minha vida, aprender o bom hábito de praticar meditação sentada todos os dias para me acalmar e cultivar mais estabilidade, solidez e liberdade. Muitos de nós em Plum Village aprendemos o hábito de voltar à nossa respiração e sorrir toda vez que ouvimos o sino tocar. Esses hábitos positivos precisam ser cultivados, porque nossos hábitos negativos sempre nos empurram para fazer e dizer coisas que causam sofrimento a nós e aos outros.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Encontrando a nossa verdadeira moradia

Construindo a nossa Terra da Magnífica Felicidade Shariputra, todos que nascem em Sukhavati possuem naturalmente a qualidade da nãoretrogressão. Entre as pessoas que vivem naquela Terra, muitas delas realizarão a Budeidade em somente mais uma vida. O número destes bodhisattvas é infinito e não há como calculá-lo. Este número somente pode ser expresso através da palavra ilimitado. (leia abaixo o texto completo, traduzido pelo nosso amigo de sangha Fernando Domicildes Carvalho, a quem muito agradecemos pela oportunidade de podermos compartilhar esses maravilhos ensinamentos do Thây)
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A rede de segurança em Sukhavati "Avaivartika" é a palavra sânscrita traduzida por não-retrogressão. Isto significa que quando alguém nasce na Terra Pura, ele somente poderá avançar e não poderá regredir. Ele não poderá cair de volta no mundo do sofrimento, afogando-se na escravidão do apego. Por que isto ocorre? Há algo como uma rede estendida em torno de Sukhavati, de tal sorte que, não importando os nossos tropeços e as nossas quedas, nós não cairemos muito distante desta Terra Pura. O que é esta rede de segurança que nos segura de maneira que nós não podemos cair de volta no mundo do sofrimento? Para um praticante, a prática da plena consciência é a nossa proteção fundamental. Com a plena consciência, nós não nos afogaremos no sofrimento da raiva, da aversão, do desejo e do medo. O corpo da Sangha nos protege de perdermos o controle devido às nossas atividades habituais. Nos limites do corpo da Sangha, somos protegidos pela plena consciência de nossos membros praticantes. Quando alguém se sente um pouco fraco e deficiente em firmeza, os outros praticantes podem ser enérgicos e resolutos em suas práticas. Nós podemos apoiar uns aos outros e podemos amparar os seres ao nosso redor com a nossa própria prática da plena consciência e com o nosso poder de ver profundamente e de transformar o nosso sofrimento em paz e em felicidade. Assim, a prática da plena consciência é a nossa rede de segurança e a prática de tomar refúgio o corpo da Sangha é, também, a nossa rede de proteção. Avançando no caminho da Prática Quem quer que renasça em Sukhavati é automaticamente incapaz de regredir. Entre estes seres, há muitos bodhisattvas que se tornarão Buddhas em suas vidas futuras. Você poderá ir a qualquer terra que você quiser para preparar-se para tornar-se um Buddha. Antes do nascimento do Buddha Shakyamuni, ele havia sido um bodhisattva. O seu último nascimento foi no mundo "saha" e ele se tornou um Buddha neste mundo. Em Sukhavati, o número destes bodhisattvas que se tornarão Buddhas em seus próximos nascimentos é infinitamente vasto e nenhum método de cálculo será capaz de defini-lo. A palavra sânscrita é "asangika" que significa "inumerável". Regredir significa mover-se para o passado. Quando vivemos com uma Sangha e quando praticamos durante as vinte e quatro horas do dia com uma comunidade de praticantes, mesmo que tivermos dias difíceis sabemos que estamos ainda avançando em nosso caminho da prática. Persistir com a Sangha já é um movimento de avanço. Quando o sofrimento surge, nós praticamos. Nós não vemos o nosso sofrimento como uma regressão. É somente quando não praticamos que podemos regredir no caminho espiritual. Se sofrermos e praticarmos, aprenderemos a partir do nosso sofrimento e seremos mais fortes e mais estáveis. Se sofrermos e formos capturados, e perdermos a nossa plena consciência, a nossa concentração e o nosso discernimento, então estaremos regredindo em nosso caminho da prática. Se tivermos sorte e um corpo de Sangha forte, nós não cairemos muito e seremos capazes de avançar novamente. Delicados e nobres companheiros Shariputra, quando os seres vivos ouvem falar de Sukhavati em qualquer lugar que estejam, eles deveriam criar a aspiração suprema de nascer em tal terra. Estas são palavras de encorajamento e de exortação proferidas pelo Buddha. Ele fornece uma boa razão pela qual nós deveríamos aspirar nascer em Sukhavati: Por quê? Porque, tendo nascido naquela terra, eles serão capazes de viver e de estar muito próximos de pessoas de elevada bondade. Neste sutra, há muitas sentenças interessantes, porém, entre todas elas, esta é a de maior interesse. Não é muito importante que, quando nascemos naquela terra, nós possuiremos ouro, prata, lagoas, lagos, brisa, espécies maravilhosas de pássaros, fileiras de árvores ou outros objetos maravilhosos. Sukhavati é bela acima de tudo porque é o local onde seres nobres e virtuosos se reúnem. Esta é a principal razão pela qual queremos nascer naquela terra. Quando estivermos naquela terra, seremos capazes de viver próximos de inúmeros seres nobres. Embora o Buddha não afirme isto explicitamente, sabemos que o Buddha Amitabha é alguém que possui uma notável habilidade de construir uma Sangha. Se o Buddha Amitabha não for nobre, então quem gostaria de ir para a Terra Pura com o objetivo de trabalhar e viver com ele? Por causa de sua nobreza, quase todos os outros seres que também são nobres gostariam de ir reunir-se naquele local. A chave para o sucesso na construção de uma Sangha é ser capaz de reunir seres nobres e generosos no local em que vivemos. De acordo com o sutra, os seres vêm e vivem juntos em um único local. Todos queremos ser como o Buddha Amitabha. Quando estabelecemos uma Terra Pura ou um centro de prática, queremos que todos os seres bondosos do mundo reúnam-se neste local para trabalhar conosco. Sabemos que se formos ditatoriais e difíceis de conviver, e não soubermos utilizar a fala amorosa, os seres bondosos não virão viver conosco. Sabendo que há numerosos habitantes virtuosos na terra da Imensa Felicidade, descobrimos que o Buddha Amitabha é um ser nobre que pode atrair todos aqueles seres bondosos para bem próximo de si mesmo. Quando ouvimos sobre o Buddha Amitabha e a sua terra, todos queremos ir para a sua terra com o objetivo de viver e estar próximos dos seres mais nobres do mundo. Pessoas de elevada bondade são pessoas que possuem um coração muito generoso, sementes firmes de generosidade em suas consciências e somente gostam de pensar, de falar e de fazer aquilo que é saudável. A palavra "bondade" em chinês significa literalmente "saudável". Em Sukhavati, as pessoas somente pensam sobre o que está relacionado com a bondade e os seus pensamentos são saudáveis. Por que isto ocorre? Porque o ambiente em torno delas apresenta muitas condições que permitem entrar em contato e irrigar as sementes saudáveis que estão em nós. Por exemplo, quando ouvimos os pássaros cantando, lembramos dos ensinamentos maravilhosos dos Cinco Poderes – as cinco fontes da energia espiritual que são a fé, a diligência, a plena consciência, a concentração e o insight. Irrigando as sementes da Terra Pura Quando a nossa mente encontra-se leve, livre e feliz, os três caminhos obscuros do reino dos infernos, do reino dos fantasmas famintos e do reino dos animais não surgem. Estas três circunstâncias obscuras podem manifestar-se em nós a qualquer momento do dia se perdermos a nossa plena consciência, a nossa concentração e o nosso insight. O reino dos infernos, o reino dos fantasmas famintos e o reino dos animais estão todos presentes em nós mesmos na forma de sementes. Se não estivermos plenamente conscientes e não praticarmos, então estas três circunstâncias nocivas podem manifestar-se a qualquer momento. Em todo instante em que nos tornamos furiosos, o fogo do reino dos infernos irrompe em chamas e nos queima. Quando o reino dos infernos manifesta-se, então desaparece automaticamente a Terra Pura. É justamente quando a escuridão se manifesta, a luz não está mais presente. Quando o reino dos infernos desaparece, então a Terra Pura se manifesta. As sementes da Terra Pura estão presentes em todos nós, mas também as sementes dos três caminhos ou circunstâncias nocivas. Se quisermos manter a Terra Pura, então teremos que fazer algo para que a Terra Pura se revele a si própria no momento atual. Se quisermos manter os três caminhos nocivos, então teremos que fazer algo para que o reino dos infernos, o reino dos fantasmas famintos e o reino dos animais se revelem a si próprios no momento atual. Escrevi em um poema: "Gritei, exausto, do inferno de Avici". Estamos todos neste inferno e também sabemos que quando o inferno está presente em nós, a Terra Pura não pode se manifestar. No passado, fomos também fantasmas famintos. Corremos de um lugar para outro sonhando em encontrar um pouco de amor, de compreensão e um local de refúgio. As sementes dos fantasmas famintos encontram-se em nossas próprias mentes e em nenhum outro lugar. Quando estamos desorientados e perambulando, nos tornamos fantasmas famintos. Quando estamos dominados pelos nossos desejos por prazeres materiais, nos tornamos um animal selvagem que não conhece nada além de comer e de caçar após a sua satisfação sexual. Se a Terra Pura desaparece de nossas vidas é porque as sementes do reino dos infernos, do reino dos fantasmas famintos e do reino animal estão se manifestando nas formas com as quais falamos, agimos e pensamos. Nosso desejo mais elevado é construir uma Sangha Qual é o meu desejo mais elevado? Não é construir um enorme templo, edificar uma imensa estátua do Buddha, possuir muitas e gordas contas bancárias ou, ainda, possuir um título de doutor. Não quero comandar uma congregação budista. Não quero comandar a Sangha ou a Terra Pura. Quero somente ser capaz de construir uma Terra Pura para que pessoas nobres possam vir e viver juntas e que essa terra seja um local de refúgio para cada indivíduo. Se a Terra Pura está em nossas próprias mentes, então onde quer que possamos ir a Terra Pura se revelará por si mesma. As pessoas que possuem a Terra Pura em suas mentes possuem uma qualidade humanitária muito elevada. Neste sutra, estas pessoas são denominadas "pessoas de elevada bondade ou elevada virtude". Estas pessoas possuem a sabedoria que as conduz para além do desejo por fama ou por lucro. Alguém que apresenta a característica de elevada bondade é alguém com quem se pode conviver facilmente. Sukhavati é o local onde muitas pessoas de elevada bondade vêm viver em conjunto. Esta sentença do sutra expressa as nossas mais profundas aspirações porque aquilo que mais nos interessa e mais nos inspira é sermos capazes de construir um centro de prática para que as pessoas nobres do mundo inteiro possam se reunir e viver felizes em conjunto. Esta localidade poderá ser um local de refúgio para cada uma e também para incontáveis outras pessoas. Em nossos mais profundos desejos possuímos também a semente do Buddha Amitabha. Esta semente é a aspiração profunda para estabelecer uma morada onde as pessoas queiram viver, isto é, um ambiente que seja favorável para a prática. Se houver muitas pessoas de elevada bondade que vêm e vivem juntas, então a Terra Pura se revelará por si própria e nós não precisaremos procurá-la. Quando podemos nos sentar próximos de alguém que seja nobre, percebemos que nos sentimos felizes. Assim, o quanto felizes seremos se formos circundados por incontáveis pessoas gentis? Estas pessoas somente necessitam vir e, sem fazerem coisa alguma, o local onde elas estão já é a Terra Pura, já é o Reino de Deus. Se as pessoas não nobres sentam-se juntas por somente alguns minutos, a atmosfera se torna sufocante. O reino dos infernos se manifestará imediatamente tão logo estas pessoas não nobres se reunirem. Por isso, vemos como o reino dos infernos ou a Terra Pura podem manifestar-se a partir das mentes das pessoas. Cada pessoa que pratique um caminho espiritual aprecia e quer estabelecer uma Terra Pura. Entretanto, o estabelecimento de uma Terra Pura não é o trabalho de uma pessoa sozinha, mesmo se esta pessoa for um ser completamente iluminado. Podemos ver que o mundo de Sukhavati não é o trabalho do Buddha Amitabha sozinho. Não devemos pensar que um ser isolado poderia estabelecer uma Terra Pura. Estabelecemos uma Terra Pura com a energia combinada do corpo da Sangha. Se não formos uma pessoa nobre, não teremos a capacidade de ouvir profundamente, de proferir a fala amorosa, de saber como cooperar com as outras pessoas e seremos ditatoriais. Quem virá trabalhar conosco e como poderemos construir uma Terra Pura? Temos que indagar a nós mesmos: "Tenho a capacidade de ajudar a construir uma Terra Pura e de edificar uma Sangha de praticantes nobres?" Temos a tendência de pensar que quando iniciamos no cargo de comando de um centro de prática, não temos mais que ser obedientes à nossa irmandade no Dharma e que teremos toda a autoridade de tomar todas as decisões. O desejo de comandar uma Terra Pura é um desejo muito ingênuo. Se não estivermos felizes vivendo com a nossa irmandade no Dharma, como poderemos estabelecer uma Terra Pura? As pessoas que vêm para a nossa Terra Pura irão embora e estaremos totalmente abandonados. Uma pessoa sozinha nunca poderá estabelecer uma Terra Pura. Olhe em torno de você e poderá ver alguém assim. Esta pessoa possui uma forte aspiração para estabelecer uma Terra Pura, embora ela não seja muito feliz, não seja tolerante, não seja paciente na audição profunda das outras pessoas, seja incapaz de falar compassivamente e inábil para trabalhar com as outras pessoas. Esta pessoa somente deseja que as outras pessoas trabalhem de acordo com as próprias idéias dela. Uma pessoa como esta não pode estabelecer uma Terra Pura e não pode ser denominada um bodhisattva que se tornará um Buddha na próxima existência. Quem poderá nos dizer se nos tornaremos um Buddha na próxima existência? Ninguém precisa nos dizer. Tudo que precisamos fazer é olhar para dentro de nossas próprias mentes e saberemos imediatamente. De agora em diante, quando lermos ou ouvirmos estas sentenças - "Shariputra, quando os seres vivos ouvirem falar sobre Sukhavati em qualquer lugar, eles deveriam criar a elevada aspiração de nascer em tal terra. Por quê? Porque após ter renascido naquela terra eles serão capazes de viver e estar bem próximos de muitos seres de elevada bondade" - vamos parar e olhar profundamente para a nossa própria capacidade de estabelecer uma Terra Pura. A Terra Pura é o local onde pessoas bem estabelecidas na bondade vêm viver juntas. Condições suficientes que nos permitem encontrar a Terra Pura Shariputra, não se pode nascer nesta terra sem méritos ou raízes saudáveis. Ao ler esta sentença do sutra, poderemos nos sentir desesperançados. Porém, outras sentenças seguintes irão despertar novamente o nosso entusiasmo e a nossa alegria. Há sentenças que nos dizem que necessitamos somente de relembrar o nome do Buddha uma única vez ou algumas vezes e teremos as condições suficientes para renascer na Terra Pura. Inicialmente, estas duas idéias – com poucos méritos não se pode renascer na Terra Pura e somente relembrando o nome do Buddha Amitabha uma única vez se pode renascer na Terra Pura – podem parecer contraditórias. Devemos acreditar nelas e nos admirar com estas sentenças. Na verdade, estas sentenças divergentes são os dois lados de uma mesma moeda.
Por "mérito", queremos dizer boa ventura e causas e condições saudáveis. Raízes saudáveis são raízes em beleza e em bondade. Se estas raízes forem insuficientes, teremos poucas esperanças de renascer na Terra Pura. Raízes são também algumas vezes denominadas sementes. Uma flor de lótus pode brotar tanto pelo cultivo de uma semente de lótus quanto pelo plantio de um pedaço de um tubérculo de lótus. Se você quiser renascer na Terra Pura, você necessitará possuir as sementes ou as raízes da Terra Pura, sementes de beleza e de bondade que plantamos em nossa consciência. Isto poderá ocorrer quando formos a um monastério para demonstrar o nosso respeito pelos Seres Despertos, oferecermos recursos para ajudar um órfão, realizarmos doações para monges e para monjas, desviarmos e salvarmos a vida de uma formiga ou proferirmos em voz alta a recordação do nome do Buddha - "Namo Buddhaya". Estas pequenas ações já são o estabelecimento das raízes saudáveis.
Se alguém estiver passeando por um monastério e proferir as palavras "Namo Buddhaya", esta será a condição que poderá conduzi-lo a se tornar um Buddha no futuro. Mesmo que a semente ou as raízes sejam extremamente pequenas, estas ações foram plantadas em nossa mente e, sem dúvida, elas se tornarão as causas e as condições que nos colocarão em contato com o caminho da prática e da realização do caminho da prática. Podemos refletir sobre a sentença que afirma que alguém que possui raízes ou méritos saudáveis em número insuficiente possui pouca chance de renascer na Terra Pura. Em Plum Village, por exemplo, encontramos estudantes de meditação da Rússia, da Noruega e da África do Sul. Há algumas pessoas que vivem em Paris e que precisariam somente embarcar em um vôo de uma hora para Plum Village, mas elas não vêm. Algumas pessoas que vivem muito próximas de uma Terra Pura podem nunca ter ouvido falar sobre ela e podem nunca possuir as condições corretas para virem para cá. E mesmo que as condições sejam corretas, elas vivem a muitos quilômetros de distância do local que desejariam encontrar. Um provérbio chinês afirma "Se as condições forem insuficientes, mesmo que nos sentamos um em frente ao outro, nunca teremos a chance de nos encontrarmos". Qual é, então, a diferença entre as condições suficientes e as insuficientes? Não é uma questão de distância. Trinta mil pessoas na Suíça foram ver o filme Steps of Mindfulness (Passos de Plena Consciência) que descreve uma visita de uma delegação de Plum Village a Índia no ano de 1997. O que fez com que estas pessoas escolhessem ver este filme? Algumas delas que viram o filme foram para suas casas e compraram livros sobre a plena consciência para ler. Algumas delas escreveram para Plum Village e agendaram as suas visitas ao monastério. Por que elas fizeram isto mesmo que nunca tivessem estado antes em um monastério? Porque elas tiveram a oportunidade de ver um filme no qual observaram monges e monjas e ouviram inúmeras palestras sobre o Dharma. Este filme irrigou as sementes em suas consciências e, quando elas chegaram posteriormente em suas casas, procuraram iniciar a sua prática. Ir para a Terra Pura não é difícil. Precisamos somente das causas e das condições corretas. Precisamos somente saber que há uma Terra Pura lá, pegar o telefone e dizer: "Alô. É da Terra Pura? Eu gostaria de fazer uma visita e praticar por uma semana". O bodhisattva que atender ao telefone dirá: "Tudo bem. O retiro de inverno ainda tem vagas disponíveis". É tão fácil assim! Tudo o que você precisa é de causas e de condições suficientes. Se você não as possuir, mesmo que seja vizinho da Terra Pura, você não virá. Se você possuir as causas e as condições corretas, você virá mesmo que viva a milhares de quilômetros de distância. Tudo o que você precisa é de um e-mail, de um fax ou de uma chamada telefônica e você já estará voando em direção a uma Terra Pura. Olhando profundamente, vemos que entrar em uma Terra Pura ou no reino de Deus não é uma questão de tempo ou de espaço. É uma questão de causas e de condições suficientes. A principal condição que precisamos é a nossa própria aspiração de viver na beleza e na paz, de viver alegre e profundamente o momento presente e de cultivar a nossa compreensão e o nosso amor. Com estas intenções saudáveis não precisamos viajar muito distante para entrar na Terra Pura porque a Terra Pura estará disponível imediatamente. O Reino de Deus está em nossas mentes e o Reino de Deus se manifesta em tudo que tocamos. Viver maravilhosamente e feliz em qualquer situação em que nos encontramos nos levará certamente em uma bela direção. Viver colericamente e demonstrando aversão nos levará para uma direção diferente. Nunca será tarde para começar a semear as sementes e as intenções saudáveis. Não é uma questão de tempo, mas uma questão de dar um passo na realização da aspiração de caminhar na direção da terra santa e da terra da Suprema Felicidade. Caminhar na direção da Terra Pura não é diferente de entrar na Terra Pura – chegaremos nesta Terra Pura imediatamente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Neste Carnaval, apenas...

Foto do quadro originalmente escrito por Thich Nhat Hanh para a Sangha Plena Consciência - o original encontra-se exposto em nossa sala de meditação

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Conhecendo as Escolas Budistas

Conforme se espalhou pela Ásia ao longo dos séculos, a comunidade buddhista — a Sangha — adaptou-se às necessidades locais e fez surgir diversas tradições, ou escolas. Todas as tradições autênticas possuem um núcleo comum de ensinamentos, como as quatro nobres verdades, o nobre caminho óctuplo etc. Cada escola enfatiza determinados aspectos e práticas do ensinamento buddhista. Conhecendo as diversas tradições, também podemos apreciar um pouco das belíssimas culturas orientais. No sul e sudeste asiático, a tradição predominante é a Theravada. Na China, na Coréia, no Japão e no Vietnã, desenvolveu-se o grande veículo ou Mahayana, cujas vertentes mais conhecidas são a escola Zen e a escola Terra Pura. Já no Tibet, Nepal, Mongólia e outras regiões próximas ao Himalaya, o buddhismo tântrico ou Vajrayana fez surgir quatro escolas — Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug.

Leia, abaixo, um pouco mais sobre cada uma dessas Escolas, lembrando que a tradição do nosso Mestre está mais vinculada à Escola Zen - uma das principais tradições do buddhismo Mahāyāna

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Ch’an / Zen
A escola Zen é uma das principais tradições do buddhismo Mahāyāna ou Grande Veículo. Seus ensinamentos enfatizam a meditação sentada e o uso de paradoxos para revelar nossa verdadeira natureza.O Zen teve um papel fundamental para a formação da cultura, filosofia e religiosidade do extremo oriente, especialmente na China, na Coréia, no Japão e no Vietnã.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, Dhyāna signfica Meditação. Em chinês, esta palavra foi traduzida como Ch'an, em japonês como Zen, em coreano como Sŏn e em vietnamita como Thiền.

Theravāda
A escola Theravāda é a tradição buddhista mais antiga ainda presente nos dias de hoje. Seus ensinamentos de meditação são baseados em uma grande coleção de textos escritos em pāli, um antigo idioma indiano.Esta escola é predominante nos países do sul e sudeste asiático (Myanmar, Śrī Lańkā, Camboja, Thailândia e Laos).
Etimologia: em pāli, uma antiga língua indiana, a palavra Theravāda signfica Ensinamento dos Antigos. Os seguidores desta escola são chamados theravādins.

Terra Pura
As escolas Terra Pura estão entre as principais tradições do buddhismo Mahāyāna ou Grande Veículo. O foco de suas práticas é a recitação do nome de Amitābha, o Buddha da Vida e Luz Infinitas.Estas escolas são as tradições buddhistas mais populares no extremo oriente. Na China, o buddhismo Terra Pura fundiu-se com a escola Ch'an. No Japão, o buddhismo Terra Pura tem duas escolas principais, Jōdo e Jōdo Shin.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, a expressão Kşetra Śuddhi significa Terra Pura ou Campo Puro. Em chinês, esta expressão foi traduzida como Ching-t'u e em japonês como Jōdo.

Budismo Tibetano
O buddhismo tântrico ou Vajrayāna é a tradição buddhista predominante no Tibet, Nepal, Butão, Mongólia e norte da Índia. Suas práticas enfatizam o uso de visualização, recitação e meditação.O buddhismo tibetano possuiu quatro escolas — Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug. O Vajrayāna também foi influente na China e no Japão através de duas escolas, a Mi-tsung/Shingon e a T'ien-t'ai/Tendai.
Etimologia: em sânscrito, uma antiga língua indiana, Vajrayāna signfica Veículo Adamantino ou Indestrutível. No Japão, o buddhismo esotérico é conhecido como Mikkyō ou Ensinamento Secreto.


Fonte: http://www.dharmanet.com.br

Exercícios para Alertar a Mente

"Apresentamos a seguir alguns exercícios adaptados de vários métodos para atender às minhas condições e preferências, os quais tenho usado com frequência. Selecione os que mais gosta e mais se adaptem a você. O valor de cada método varia de acordo com a necessidade de cada pessoa. Esses exercícios, embora relativamente fáceis, constituem a base sobre a qual tudo o mais é construido. " (Thich Nhat Hanh - Para Viver em Paz - O Milagre da Mente Alerta)

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1. Leve sorriso
a-) Sorria levemente ao abrir os olhos de manhã: Pendure no teto ou na parede algum objeto ou mesmo a palavra “sorria” que você possa ver ao despertar. Servir-lhe-á de lembrete. Use os momentos antes de se levantar da cama para exercer o controle da respiração. Inspire e expire três vezes, suavemente, mantendo leve sorriso. Siga sua respiração.
b-) Leve sorriso quando está irritado: Quando se der conta de que está irritado, sorria imediatamente. Inspire e expire calmamente, sempre levemente sorrindo, por três minutos.

2. Relaxando
a-) Relaxando em posição deitada: Deite-se de costas sobre uma superfície plana, sem usar colchão ou travesseiro. Estenda os braços ao lado, à vontade, e as pernas ligeiramente afastadas. Mantenha leve sorriso. Focalize a atenção na respiração, inspirando e expirando suavemente. Solte todos os músculos do corpo. Relaxe cada músculo até senti-lo como se estivesse afundando no chão, ou como se fosse uma tira de seda macia pendurada a secar na brisa. Solte-se inteiramente, mantendo a atenção na respiração e no leve sorriso. Imagine-se como um gato, relaxadamente estendido diante do calor do fogo, cujos músculos cedem sem resistência ao toque de qualquer pessoa. Continue assim pelo menos por quinze respirações.
b-) Relaxando sentado: Sente-se em lótus completo ou meio lótus, ou apoiando o corpo sobre as pernas dobradas (posição japonesa) ou mesmo numa cadeira, com os pés tocando o chão. Inspire e expire mantendo leve sorriso. Solte-se como se indica no item anterior.

3. Respiração
a-) Respiração profunda: Deite-se de costas. Respire regularmente prestando atenção ao movimento do estômago. Ao inspirar, deixe que seu estômago levante para trazer ar à parte baixa dos pulmões. À medida que a parte superior de seus pulmões começa a se encher de ar, seu peito começa a levantar e o estômago a baixar novamente. Continue assim por dez respirações. A expiração será mais longa do que a inspiração. Não se fatigue.

4. Contemplação da interdependência
a-) Contemplação dos cinco agregados: Pegue uma foto sua de quando era criança. Sente-se em lótus completo ou meio lótus. Comece a seguir sua respiração conforme se indica no item 3.a. Após vinte minutos, focalize sua atenção na foto à sua frente. Recrie e reviva os cinco agregados dos quais você era feito ao tempo da foto: a característica física do seu corpo, seus sentimentos, percepções, funcionamento mental e consciência daquela idade. Continue a seguir sua respiração. Não deixe que as lembranças o levem para longe nem que o dominem. Permaneça nessa contemplação por quinze minutos, mantendo o leve sorriso. Direcione então sua mente para o seu eu presente. Esteja consciente de seu corpo, sentimentos, percepções, funcionamento mental e consciência deste momento. Veja os cinco agregados que o compõem presentemente. Faça a pergunta: “Quem sou eu?” A pergunta deve estar profundamente enraizada em você, como semente nova aninhada no fundo da terra revolvida. “Quem sou eu?” não deve ser uma pergunta abstrata a ser considerada com seu intelecto discursivo. Ela não dever ser confinada ao seu intelecto, mas ser posta à luz dos cinco agregados. Não procure encontrar uma resposta racional. Contemple por dez minutos, mantendo respiração leve, mas profunda, para impedir que seja levado por reflexões filosóficas.
b-) Contemplação de si mesmo: Sente-se na penumbra do quarto, ou à beira de um rio à noite, ou em qualquer outro lugar solitário. Começa a controlar a respiração (3.a.). Faça brotar o pensamento: “Vou usar meu dedo indicador para apontar a mim mesmo”, e então, ao invés de apontar para seu corpo, aponte-o para diante de si. Contemple vendo-se a si mesmo, fora de sua forma física. Contemple vendo-se nas árvores, na relva, nas folhas, no rio. Esteja cônscio de que você está no universo e o universo está em você: se o universo é, você é, se você é, o universo é. Não há nascimento. Não há morte. Não há vir. Não há chegar. Não há partir. Mantenha leve sorriso. Controle a respiração. Contemple por dez ou vinte minutos.
c-) Contemplação do esqueleto: Deite-se sobre a cama, esteira ou grama, em posição confortável. Não use travesseiro. Comece controlando a respiração. Contemple que tudo o que restou do seu corpo é um branco esqueleto deixado na terra. Mantenha leve sorriso e continue a seguir a respiração. Imagine que toda sua carne se decompôs, e que seu esqueleto agora jaz na terra, oitenta anos depois dos funerais. Veja claramente os ossos de sua cabeça, costas, quadris, pernas, braços e dedos. Mantenha leve sorriso e respire suavemente, com o coração e mente serenos. Veja que seu esqueleto não é você. Sua forma física não é você. Seja uno com a existência. Viva eternamente nas árvores, na relva, nas outras pessoas, nos pássaros, nos animais, no céu, nas ondas do oceano. Seu esqueleto é apenas uma parte de você. Você está presente em tudo e em qualquer tempo. Você não é apenas seu corpo, ou mesmo sentimentos, pensamentos, ação e conhecimento. Contemple assim de vinte a trinta minutos.
d-) Contemplação de sua face antes de ter nascido: Sentado em lótus completo ou meio lótus, siga sua respiração. Concentre-se no início de sua vida. (A) Saiba que ele é o início de sua morte também. Veja que ambos, vida e morte, se manifestam ao mesmo tempo: isto é porque aquilo é, isto não poderia existir se aquilo não existisse. Veja que a existência de sua vida e morte depende uma da outra: uma constitui a base da outra. Veja que você é ao mesmo tempo sua vida e sua morte; que ambas não são inimigas, mas aspectos da mesma realidade. Então, concentre-se no ponto em que essa dupla manifestação termina (B), que erradamente é denominado morte. Veja que é o ponto final da manifestação de ambas: sua vida e sua morte. Veja que não há diferença antes do A e depois do B. Procure sua verdadeira face no período anterior a A e posterior a B.

e-) Contemplação do ente querido morto: Deite ou sente-se em posição confortável. Comece controlando a respiração (3.a). Contemple o corpo do ente querido, morto há poucos meses, ou há muitos anos atrás. Saiba claramente que toda a carne dessa pessoa se decompôs e que só o esqueleto resta agora. Saiba claramente que seu corpo ainda está aqui e que nele convergem os cinco agregados: forma física, sentimentos, percepção, função mental e consciência. Pense na sua interação com essa pessoa no passado e no momento presente. Mantenha leve sorriso e mantenha controle de sua respiração. Contemple assim por quinze minutos.

5. Contemplação da compaixão
a-) Contemplação da pessoa que você mais despreza e odeia: Sente-se em lótus completo ou meio lótus. Respire e sorria. Contemple a imagem da pessoa que mais lhe causou sofrimentos. Contemple a forma física, sentimentos, percepções, função mental e consciência dessa pessoa. Contemple cada agregado separadamente. Comece com a forma física, contemplando o aspecto que mais despreza ou que mais repugnância lhe cause. Continue com os sentimentos da pessoa: examine o que é que a torna feliz ou sofredora na vida diária. Ao contemplar a percepção, tente ver os padrões de pensamento e de raciocínio que essa pessoa segue. Como funcionamento mental, examine o que motiva suas ações e aspirações. Finalmente considere sua consciência: veja se sua visão e discernimento são abertos ou não, e se forma ou não influenciados por preconceitos, estreiteza mental e ódio. Veja se a pessoa é ou não senhora de si mesma. Contemple assim até que a raiva e o desprezo desapareçam e a compaixão brote em seu coração, como água fresca nascendo na fonte. Pratique esse exercício muitas vezes.


Estes exercícios são parciais. A série completa pode ser encontrada no livro “Para Viver em Paz” – O Milagre da Mente Alerta – Thich Nhât Hanh.

Os Cinco Treinamentos - Comentários da Irmã Chân Không

Aqui estão algumas respostas que temos oferecido para aqueles que amam a beleza e a bondade dos treinamentos da plena consciência, mas hesitam em tomá-los formalmente (por Irmã Chân Không – Uma das primeiras colaboradoras do Thay e organizadora central das atividades em Plum Village - Tradução: Samuel Cavalcante)
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Questão: Eu nasci cristão. Eu tenho de abandonar minha fé para receber os Cinco Treinamentos da Plena Consciência formalmente?

Irmã Chân Không: Uma árvore sem raízes não pode sobreviver; você não poderá crescer bem espiritualmente se você não tiver raízes. Você não deve abandonar suas raízes religiosas. Por favor, pratique a plena consciência como base tendo os Cinco Treinamentos da Plena Consciência como guia. Com a plena consciência você pode observar em profundidade as raízes de sua tradição e descobrir nela muitas jóias maravilhosas. Você deve redescobrir as linhas mestras de sua própria tradição que você pode compartilhar com seus amigos cristãos e não cristãos.

Questão: Quando eu tomo os Cinco Treinamentos da Plena Consciência com outros professores budistas, as expressões usadas não são tão claras como nos treinamentos da plena consciência de Thich Nhat Hanh. Posso tomá-los novamente?

Irmã Chân Không: Sim. Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência vêm de Buda. Seu professor-raiz continua a ser o seu professor-raiz. O novo modo de expressar os Cinco Treinamentos da Plena Consciência oferecidos por Thây serve para ajudar você a praticar bem os ensinamentos de Buda. Seu professor-raiz ficará bastante satisfeito se você renovar seus votos dessa maneira. Ele ou ela serão sempre o seu primeiro professor. Thây Nhat Hanh será o seu segundo ou terceiro ou quarto professor. Nós podemos ter muitos professores para enriquecer nossa experiência.

Questão: Eu quero praticar os Cinco Treinamentos da Plena Consciência, mas por que é necessário tomar refúgio nas Três Jóias?

Irmã Chân Không: Sem uma forte crença nestas três jóias preciosas, você não poderá praticar os Cinco Treinamentos da Plena Consciência. "Eu tomo refúgio no Buda" significa que eu acredito firmemente ma minha habilidade de me tornar iluminado, de transformar minhas dificuldades, me tornar livre de todo o sofrimento e ser uma fonte de alegria e paz para mim mesmo e para os outros. "Buda" significa o Buda em mim, o potencial de despertar em mim. Eu sei que Shakyamuni Buda é o meu professor. Sei também que ele não é um deus.

"Eu tomo refúgio no Dharma" significa que eu acredito na prática da plena consciência, que traz entendimento e amor. Eu acredito no método que Shakyamuni Buda me ofereceu a partir de sua experiência, para que assim eu possa realizar o caminho que leva à liberdade do sofrimento.

"Eu tomo refúgio na Sangha" significa que eu acredito na sabedoria coletiva de um grupo de amigos que se dedicam a praticar o mesmo método que eu em nosso caminho de libertação. Nós precisamos uns dos outros para apoiar e compartilhar as experiências de prática para que nossas percepções se aproximem cada vez mais da realidade e nossas ações se tornem cada vez mais harmoniosas. Apoiando-nos no caminho da realização, e assim fazendo coletivamente, nossos esforços beneficiarão a nós mesmos e a todos os seres.

Sem fé e confiança nas Três Jóias é difícil praticar bem os Cinco Treinamentos da Plena Consciência.

Pergunta: Eu posso tomar apenas um, dois, três ou quatro dos Cinco Treinamentos da Plena Consciência?

Irmã Chân Không: O Buda diz sim, você pode. Se você pratica profundamente mesmo que apenas um treinamento da plena consciência, você irá descobrir que está mantendo os outros quatro mesmo sem fazer uma promessa formal. Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência são bem interconectados.

Pergunta: Se eu tomo o Primeiro Treinamento da Plena Consciência isso significa que eu tenho que me tornar vegetariano?

Irmã Chân Không: Thây Nhat Hanh nos pede que pratiquemos a plena consciência cada vez que comamos ou bebamos. Se assim o fizermos, descobriremos que o nosso apetite por carne e peixe começa a diminuir. O que é importante é estar consciente do que consumimos. Encontrei pessoas que não podiam ser vegetarianas por razões médicas, mas que respeitavam mais a vida que muitos vegetarianos. Alguns vegetarianos são por demais extremados e não são respeitosos com aqueles que não podem deixar de comer carne. Sinto-me mais confortável com um consumidor de carne do que com um vegetariano extremista que se considera o dono da verdade.

Pergunta: Muitos dos meus amigos, incluindo eu mesmo, temos dois ou três parceiras sexuais. Como você sugere que eu mantenha o Terceiro Treinamento da Plena Consciência?

Irmã Chân Không: Quando você faz duas ou três coisas ao mesmo tempo, como jantar, assistir televisão e conversar com os amigos na mesa do jantar, você acaba não fazendo nenhuma das três coisas profundamente. Você não consegue saborear e gozar cada porção de comida que sua amada preparou para você. Você também não consegue dar atenção completa ao programa de televisão e também não poderá ouvir com cuidado o que seus amigos estão dizendo. É muito mais difícil se você tem várias parceiras sexuais ao mesmo tempo. Por favor, examine isso profundamente. Nenhuma de suas relações será profunda. Pergunte ao seu coração se é realmente feliz. Pode estar tudo bem agora, mas você está certo de que não está causando sofrimento para você ou para suas parceiras? Uma relação superficial, sem compromisso, nunca leva à uma real felicidade ou paz.

Pergunta (de um adolescente): Na minha escola, todos os da minha idade são sexualmente ativos. Por que eu não eu não deveria ser? Se eu não agir como eles, meus amigos irão pensar que eu sou estranho.

Irmã Chân Không: Uma relação sexual é um profundo ato pela paz mútua e pela preservação das espécies. Agir de uma maneira superficial prejudica nosso corpo e nossa mente. Quando nossa mente não está pronta para tal ato profundo, nossos sentimentos, percepções e entendimento em relação ao nosso amigo não são profundos o suficiente, um ato sexual irá aumentar o risco de destruição da amizade. Você pode pensar que um ato sexual é apenas mais um que você faz por prazer ou diversão, mas muitos jovens me disseram que eles depois concluíram que foi um erro. Sexo é mais profundo que outros atos. A dor causada por ter sexo sem compromisso pode ser profunda e a ferida pode levar anos para se curar. Controle da natalidade não tem nada a ver com essas feridas mentais. Muitos adolescentes dizem que eles não têm nenhuma alegria na vida, nenhum desejo de viver, depois de um dano psicológico causado por uma relação sexual para a qual eles não estavam preparados. Comumente, nós só compartilhamos nossos maiores segredos com aqueles os quais tenhamos tido uma longa experiência de apreciação e confiança. Isto também é verdadeiro com nossos corpos. Nós não deveríamos compartilhar nossos corpos com alguém que não tenhamos a intenção de ter um compromisso de longo prazo.

Pergunta: Posso tomar o Quinto Treinamento da Plena Consciência e ainda tomar ocasionalmente um copo de vinho ou cerveja no jantar?

Irmã Chân Không: Thây Nhat Hanh nos aconselha a não beber nenhum álcool se possível. Se você ainda tem uma forte inclinação para beber, faça-o com plena consciência. Observe profundamente as condições de sua vida, de seu coração, para o fato de que a humanidade desperdiça muitos grãos e frutas fabricando álcool ao invés de alimentar outros humanos. Meditar dessa maneira nos levará a nos sentir desconfortáveis quando bebemos qualquer quantidade de álcool.

Se você não está preparado para parar totalmente de beber, por favor tome os primeiros quatro treinamentos da plena consciência e tente beber com plena consciência até você estar pronto para parar. Thây Nhat Hanh aconselha aqueles que tomam o Quinto Treinamento a não beberem de jeito nenhum, mesmo que seja apenas um copo de vinho ou cerveja por semana. As autoridades da França dizem aos seus cidadãos que um copo de álcool está o.k., mas que três já é dizer olá para os danos que um acidente pode trazer. Mas como você poderá ter um segundo ou terceiro copo se você não tomou o primeiro?

Sob condições normais, nós podemos tomar um ou dois copos de vinho de tempos em tempos. Mas em momentos de desespero, tomamos cinco, seis ou sete copos para esquecer nossas tristezas. Isto pode levar ao abuso de álcool. Uma adorável vovó, durante um retiro na Inglaterra, fez esta pergunta e disse para ela: "Você bebe moderadamente, mas está segura que seus filhos e filhas, netos e netas são como você? Se durante um ou dois momentos de desespero eles beberem gradualmente mais e mais e se tornarem alcoólatras e se destruírem a si mesmos fisicamente e mentalmente, quem seria o responsável? Você não terá participado parcialmente neste processo? Se você mantém o Quinto Treinamento agora você poderá ser uma tocha de luz para as futuras gerações de netos. Mantenha os treinamentos da plena consciência como um bodhisattva, não os tome como ordens que devem ser obedecidas.”

Pergunta: Se eu quebrar um treinamento a quem devo confessar?

Irmã Chân Không: Confesse para o seu próprio Buda. A melhor maneira de praticar é com um grupo de amigos, mesmo se um ou dois. Fazendo esforço por seguir esse caminho de beleza, você pode compartilhar com eles seus sucessos e fracassos. Recitar os treinamentos regularmente com o grupo ajuda bastante. Durante a recitação dos Treinamentos da Plena Consciência, seguindo a leitura de cada treinamento, esta questão é levantada: "Você fez um esforço em estudá-los e praticá-los durante as duas últimas semanas?". Se você quebrou um treinamento, você poderá dizê-lo, silenciosamente, a si mesmo, "sei que não fui plenamente consciente e quebrei este treinamento da plena consciência. De agora em diante tentarei fazer melhor". Não se sinta tão culpada. Sua energia de hábito é bastante forte. O fato de você saber dos seus atos negativos irá enfraquecer esta energia de hábito cada vez que você recitar o treinamento e, breve, seu hábito terá se transformado.

Pergunta: Cuidando do jardim, freqüentemente sinto necessidade de eliminar certas "pestes" - vermes, insetos, roedores, que destroem o jardim. Isto é contra o Primeiro Treinamento da Plena Consciência? Também não sei como lidar com infestações, baratas e outras "pragas" domésticas. Como é que um praticante do budismo lida com esses problemas?

Irmã Chân Không: Mesmo quando fervemos água numa chaleira, devemos estar cientes de que estamos matando muitos microorganismos nesse processo. Nosso esforço é não matar, assim tentamos usar vários métodos para causar o menor dano possível a todas as criaturas vivas. Por exemplo, na jardinagem, aprendemos como cultivar certas plantas ao lado das flores, e outros vegetais, que repelem os insetos, vermes e roedores. Fazemos o possível para não usar pesticidas nocivos, mas usar substâncias orgânicas que não matem os animais, se for possível. Da mesma maneira, tentamos afugentar formigas e baratas por meios não prejudiciais - deixando comida fora do alcance delas, usando repelentes orgânicos ou apenas sendo pacientes. Se, finalmente, julgarmos necessário matar essas criaturas, é muito importante estar ciente do fato de que os estamos matando. Com plena consciência, continuamos nossos esforços em não causar dano (mesmo que saibamos que algum dano foi causado). A não violência nunca pode ser absoluta. Mas podemos continuar a fazer o possível para minimizar os danos que causamos e maximizar nossa apreciação e reverência por todas as formas de vida - pessoas, animais, plantas e minerais.

Eu gostaria de contar a vocês sobre um amigo chamado James, que sofreu tremendamente. Quando era uma criança de cinco anos foi surrado por sua mãe e empurrado junto com a sua bicicleta por dois lances de escada abaixo. Ele relembra como todos os atos de violência de sua mãe se deram no período em que ela estava bebendo. Um dia, ele apanhou até o seu olho esquerdo ficar bastante roxo e inchado. Na escola, quando seu professor perguntou por que o olho dele estava inchado, ele disse a verdade. O professor ligou para a sua casa e sua mãe negou que tivesse batido no filho. Aos quarenta e dois anos James ainda chora como uma criança de cinco anos quando lembra o ocorrido, "Ele acreditou nela e eu fui punido por mentir. Continuei a dizer a verdade e eles me puniram".

Sua mãe o enviou para viver com sua avó, que usava drogas e álcool. Quando ele tinha sete anos, ela começou a abusar dele sexualmente e a surrá-lo, especialmente quando estava bêbada. Outros atos de violência inacreditáveis foram infligidos a ele como resultado do uso de drogas e álcool. Ele fugiu da casa da avó e voltou para sua mãe. Mas ela também começou a abusar dele sexualmente. Por fim, ele conseguiu economizar o suficiente para fugir para a casa do seu pai. Quando ligou para ele dizendo que estava na mesma cidade e que desejava viver com ele, o pai ficou apavorado e mandou-o de volta.

Quando ele tinha dezessete anos, seu pai o encorajou a se alistar no exército e ir para o Vietnã. Antes de dizer adeus seu pai bateu nas suas costas e disse "o exército vai fazer de você um homem, filho". James chorou novamente. Uma tarde em Plum Village, James descreveu como ele ficava sufocado pelo desespero quando ele via todos aqueles garotos e garotas vietnamitas que traziam à lembrança aqueles que ele matou no Vietnã. Depois de muitos dias e noites de trocas de tiros a bordo do seu helicóptero, um dia ele sairia e descobriria pilhas de corpos humanos enfileirados por várias centenas de metros. "Como eu poderia trazer esses corpos à vida?". Seus amigos tentaram confortá-lo dizendo, "É a guerra, James, você não pode evitar." James pode dizer a você como, olhando para trás na sua vida, as raízes da guerra começaram na violência do divórcio dos seus pais, no alcoolismo e abuso sexual.

Tenho sido uma assistente de Thây Nhat Hanh na conduta de muitos retiros de prática da plena consciência para vietnamitas e amigos ocidentais desde 1983. Sempre encorajo as pessoas a dizer suas dificuldades ao Thây, para que ele possa ajudá-los a transformar suas dores intermináveis. Mas como Thây não pode receber todos, eu tenho ouvido a dor de muitas pessoas. A história de James é uma das dezenas de histórias similares de veteranos de guerra e outros. Muitos tiveram pais e mães que eram alcoólatras e muitos vieram de famílias destruídas. No início eu pensava que era um problema americano, mais tarde, ajudando Thây em retiros na Inglaterra, Alemanha, Suíça, Itália e França, ouvi as mesmas tristes histórias. Muito sofrimento advém do fato de que as pessoas bebem demais, são irresponsáveis em sua conduta sexual, mentem, causam sofrimento a outros devido à sua fala descuidada ou reproduz comentários sem estar seguros da sua veracidade. Muitas pessoas foram criadas por adultos bêbados ou adultos com mentes poluídas que abusavam das crianças por que eles mesmos foram vítimas disso na sua infância. Eu compreendi que os adultos que aterrorizavam suas crianças eram, eles próprios, também vítimas.

Uma maneira de sair do sofrimento, em nossa opinião, é se juntar a um grupo de pessoas alegres e que tentam praticar caminhando no sentido da bondade, da beleza e da verdade. As pessoas no grupo devem olhar sinceramente para as suas fraquezas, sorrir para elas e considerá-las como parte do seu composto a ser transformado em flores.

Hoje, existem tantas mentes poluídas e tanta atmosfera de violência e abuso. Precisamos descobrir uma saída. Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência representam um belo caminho que leva ao despertar. Mesmo se nós mesmos não tenhamos sido abusados quando crianças ou não tivéssemos tido problemas com o álcool, irresponsabilidade sexual etc., nós podemos ajudar muitos outros recebendo formalmente os treinamentos e praticando-os. Podemos ser exemplo para muitas pessoas e ajudá-las na direção da alegria e da paz.